DE JUDAS ISCARITES À JOANA D’ARC: A REDENÇÃO DO TRAIDOR

DE JUDAS ISCARITES À JOANA D’ARC: A REDENÇÃO DO TRAIDOR

      A cerca de dois mil anos após a crucificação do Cristo, o jornalista e autor brasileiro Humberto de Campos (1886-1934), na condição de desencarnado, teve a oportunidade de entrevistar o Espírito que um dia foi Judas Iscariotes.
Através da psicografia do médium mineiro Francisco Cândido Xavier, em mensagem recebida em 19 de abril de 1935, Humberto narrou ter divisado, no vale do Cédron (Jerusalém), o simpático espectro do Iscariotes sentado em uma pedra. Após ser esclarecido por um companheiro invisível sobre a identidade da sombra, recebeu a seguinte informação:

Os Espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se repentinamente transportados aos tempos idos. […] Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho…

[XAVIER, Francisco Cândido (psicografia). Crônicas de além-túmulo. Rio de Janeiro: FEB, 2009, 16ª ed., p. 40]

Abordado pelo brasileiro, Judas, então, esclareceu-lhe:

… Depois da minha morte trágica, submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta [o suicídio]. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição, deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltaram, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentindo na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência…

[idem, pp. 42-3, com adição]

O término da crônica dá-nos a entender que o Espírito Judas afastou-se, em direção ao Santo Sepulcro, pensativo e sem sofrimento. Certamente, já havia se modificado para melhor (vide mais na revista Reformador, ano LXII, nº 9, p. 204).

Em respeito à crença de nossos irmãos católicos, Humberto de Campos não citou o nome da santa Joana d’Arc, mas deu indícios bastante claros de sua identidade.

Como podemos notar, o Espírito revelou também que, antes de se tornar a Santa Guerreira da França, foi um dos inúmeros mártires do cristianismo primitivo, de modo que testemunha o árduo caminho que todos nós devemos percorrer (sem privilégios ausentes de méritos) para chegarmos à perfeição exemplar do Mestre Nazareno.

O livro O 13º Apóstolo: as reencarnações de Bezerra de Menezes (ed. Lachâtre), de Jorge Damas Martins, revelou que o publicano (judeu coletor de impostos) de Jericó, Zaqueu Matias, tomou o lugar de Judas Iscariotes após a morte deste. Matias (nome adotado por Zaqueu após converter-se ao cristianismo) conheceu Jesus quando O observava em cima de um sicômoro ou figueira (ver Lucas, cap. 19).

Matias foi uma das existências pretéritas do brasileiro Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900), Espírito de alta estirpe, que na Terra foi médico, militar, político, autor espírita e presidente da então recém-fundada Federação Espírita Brasileira. Vejamos mais detalhes das informações dadas pela grandiosa obra de pesquisa e análise, sobre textos espíritas e demais fontes, feita por Jorge D. Martins.
A IDENTIDADE DO TRAIDOR

Diversas correntes do judaísmo acreditam na reencarnação (Guilgul Neshamot, ou transmigração de almas), afirmando que a alma tem que voltar várias vezes até cumprir os ensinamentos da Torah.

(Túlio Villaça, espírita)


O traidor de Cristo era chamado de Judas de Queriote (Kriyot) ou “de Cariote”, ou seja, Iscariotes. Queriote era o nome de uma localidade situada a 20 Km ao sul de Hebrom (atuais ruínas de el-Kureitein), portanto, ele foi o único discípulo não natural da Galiléia. Era sobrenomeado de “Iscariotes” para ser diferenciado de outros apóstolos (Judas Tadeu e Judas Tomé), e demais homônimos íntimos do grupo encabeçado por Jesus. Judas também era identificado como “filho de (um certo) Simão”, como atestou João (6,71, com adição).

A última Ceia (1876), de Carl Bloch.

O pintor dinamarquês retratou Judas Iscariotes saindo em primeiro plano, à direita, para trair Cristo.

Através da revelação espírita, a exemplo do Espírito Emmanuel, pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier, em Há Dois Mil Anos (FEB), sabemos que era um homem de natureza mesquinha, ávido por dinheiro e poder. Responsável pela coleta de esmolas do grupo (tesoureiro), prática comum aos pregadores da época, a fim de custear as viagens. Infelizmente, Judas preocupava-se mais em angariar “tesouros terrenos, do que celestiais” (sobre essa frase, ver Mateus 6,19-21).

Suas limitações morais levaram-no a revoltar-se contra o pacifismo do Mestre. Entregou-O, inocentemente, às autoridades farisaicas, a fim de instigar a revolta popular armada contra o governo herodiano, vassalo dos romanos. O acordo secreto que fizera com os fariseus garantia a partilha do poder político com ele e demais aliados, além, é claro, da libertação de seu amigo Jesus. Ao ver-se ludibriado, não suportou o remorso e supliciou-se na forca.

Porém o Iscariotes ocultava dos olhos humanos seu incrível potencial de missionário cristão, pois NÃO FOI POR ACASO que Jesus o convocou ao apostolado (algo, aliás, acertado entre os dois desde muito antes da reencarnação de Judas, no Além).

Pergunta-se, “por que Jesus chamou ao apostolado um homem imperfeito como Judas?” Ora, como Ele mesmo disse, não necessitam de médico os que estão sãos, mas, sim, os que estão enfermos (Lucas 5,31). Não havia homens perfeitos, exatamente iguais ao Cristo, entre os Apóstolos, apenas bem intencionados, “carvões brutos que um dia seriam diamantes”.

O Rabi incumbiu Judas à coleta de esmolas, para que, com o auxílio dos ensinamentos e exemplos na prática do Bem, o discípulo combatesse e vencesse o vício da ganância. Não há mérito àquele que, para não cair em pecado, vive longe do pecado, ou seja, apenas em contemplação. Jesus andava entre os “sujos”, sem “sujar-se”.

Cristo, provavelmente, seria morto COM OU SEM a traição de Judas, pois viveu em uma época extremamente violenta, dominada por déspotas sanguinários. Portanto, Judas nunca foi o vil instrumento da imolação do Cordeiro de Deus.

O Iscariotes foi especialmente escolhido pela Providência, o exemplo-mor do mortal que pode cair e depois levantar-se; pode morrer e ressuscitar moralmente (como veremos mais adiante). Judas, assim como os demais Apóstolos, poderia ter sido um de nós, porque para tornar-se “santo” não basta ter o dom, deve-se merecer a entrada no Reino de Deus.

Jesus sabia que seria traído por Judas Iscariotes, sempre soube. Porém, escolheu o discípulo natural de Queriote pelo motivo de Judas ter tido um grande potencial para ser apóstolo (o Mestre cumpriu o acordo firmado entre os dois, e demais seguidores, antes de nascerem, no Além), e por respeitar o livre arbítrio do Iscariotes, que poderia, se quisesse, não trair o Mestre. Ou seja, a traição de Jesus – somente através de Judas – nunca foi, em essência, um destino inexorável (pensamento de herança grega, vide, por exemplo, as tragédias de Édipo). Entretanto, tal traição, como diversos aspectos da vida do Cristo, foram previstos por alguns médiuns das Escrituras (profetas hebreus do Antigo Testamento ou do período pré-cristão, além de João Batista, contemporâneo de Jesus).

Por isso, nós espíritas, repudiamos a tradição popular da Malhação de Judas, pois, além de incentivar a violência, indica que podemos estar dirigindo agressões a qualquer um de nós.

A Malhação de Judas no Sábado de Aleluia retratado por Jean-Baptiste Debret em 1823.

Para maiores esclarecimentos histórico-culturais sobre esse infeliz costume popular:

http://www.brasilcultura.com.br/cultura/malhacao-do-judas-voce-lembra/

Crianças brasileiras malhando um “boneco do judas”: um dos motivos porque não se deve estimular esse tipo de tradição violenta.

A traição, morte e substituição do Iscariotes foi antevista pelos profetas (médiuns) do Velho Testamento, a exemplo do Salmo 108 ou 109, 8: Sejam poucos os seus dias, e outro tome o seu encargo! O ex-publicano Zaqueu Matias, então, foi escolhido entre os integrantes das primeiras comunidades cristãs, e chamado de o Décimo Terceiro Apóstolo, assim como Paulo de Tarso foi considerado o Décimo Quarto.

Importante é que se diga que Judas Iscariotes jamais deixou de ser considerado, pela Espiritualidade Maior, um apóstolo do Cristo, no caso, o 12º (por ter sido o último a ingressar). Jesus jamais deixou de ser amigo dele (mesmo no momento da traição, ver Mateus 26,50). Por isso Matias assumiu a numeração seguinte (a nomeação apostólica feita pelo Alto é correta e intransferível, como todas as responsabilidades pessoais), a fim de continuar o ministério abandonado, temporariamente, por Judas.

COMO E ONDE OCORREU A MORTE DE JUDAS

Em Atos dos Apóstolos (1,18), lê-se sobre a queda do corpo de Judas: E tendo caído à frente estalou no meio e derramou todas as suas vísceras. Já Mateus (27,5) informa-nos sobre o auto-enforcamento: Sufocou-se.

A Tradição [num dos idiomas originais do Novo testamento, o grego] que diz que Judas se enforcou, traduzida aqui por “sufocou”, pode sugerir que Judas pendurou-se, por uma corda, em um galho de árvore, na beira de um precipício, e projetando-se à frente (prênês), rumo ao precipício, o galho ter-se-ia partido e estalou no meio (elákêsen mésos), e com o corpo espatifando-se por terra, derramou todas as suas vísceras (kaì exechythê pánta ta splágchna autoú).

[MARTINS, Jorge Damas. O 13º apóstolo: as reencarnações de Bezerra de Menezes. Niterói-RJ: Lachâtre, 2004, p. 91, com adição]

O corpo de Judas tombou em um lugar, situado em Jerusalém, que ficou conhecido como Akéldama, que em aramaico (siríaco), língua popular da Palestina daquela época, significa “campo de sangue” (Hakl-ed-damm), já que designa “o preço pelo sangue de Jesus” e “o local onde o Iscariotes suicidou-se, e onde também derramou o próprio sangue”.

Situa-se ao sul do monte Sião, próximo ao vale Hinon. Na ocasião da morte de Judas, era um terreno abandonado, mais precisamente uma depressão, onde se extraía argila branca para uma olaria, por isso era chamado de Campo do Oleiro. Porém, na época de Cristo, já se encontrava extenuado.

Como já sabemos, Judas, sinceramente arrependido (etamelêthéis, palavra que, de acordo com o Evangelho original, em grego, significa “entristecer-se depois”), devolveu as 30 moedas de prata, pela traição do Mestre, aos sacerdotes fariseus do Templo. Os clérigos, sabendo que a procedência do dinheiro era pecaminosa, não recolheram o pecúlio “impuro” ao tesouro sagrado.

Não podendo restituir o dinheiro ao dono, visto que estava morto, os sacerdotes, como era de práxis, empregaram-no em uma obra pública de finalidade humanitária. Compraram, em nome de Judas, o citado terreno abandonado, que pertencia a um oleiro. Além disso, deram o crédito da compra ao Iscariotes, porque, perante a Lei, qualquer arrependimento atenua um ato grave.

Nenhum deles se perdeu, a não ser aquele que estava destinado à perdição, para que se cumprisse a Escritura (João 17:12).

As palavras de Jesus, escritas pelo apóstolo, em primeira análise parecem ratificar a infalibilidade e determinismo do destino (futuro profetizado), mas Deus jamais infringe a lei do livre-arbítrio (dentro do limite desta) que Ele mesmo outorgou. Judas tinha plena liberdade em escolher não trair o Mestre.

Muitos peregrinos vinham a Jerusalém, sobretudo na época das festividades sacras, a exemplo da Páscoa judaica. Alguns faleciam pelos rigores da jornada e demais fatores. Para solucionar o problema dos sepultamentos dos estrangeiros, os sacerdotes ordenaram que a terra da extinta olaria, onde Judas caíra morto, fosse transformada em cemitério para gentios, local no qual os soldados romanos também poderiam ser enterrados.

Sobre isso, outra parte da profecia cumpriu-se: Fique desolada a sua morada, e não haja quem habite nas suas tendas (Salmo 68, 26 ou 69, 25), citada pelo apóstolo Simão Pedro na ocasião em que Matias substituiu o Iscariotes (ver Atos 1). Ora, supõe-se que apenas os vivos habitam os lugares, não os cadáveres (corpos materiais vazios, abandonados pela alma), que apenas jazem naquele local!

Crê-se que Judas não se dirigiu àquele sítio desolado por acaso, algo em seu íntimo o atraiu para esse lugar específico. É possível que após a crucificação do Mestre, Judas estava destinado a habitar o terreno da extinta olaria, e talvez comprasse a terra com as “moedas da traição”.

Deveria, provavelmente, fazer do lugar um centro de reunião destinado aos primeiros cristãos (uma igreja) e acolhimento aos mais necessitados, como fizeram Matias, Pedro, Tiago e demais seguidores de Jesus através da Casa do Caminho, em Jerusalém. No entanto, seu livre-arbítrio tresloucado pela dor optou pelo suicídio.

 

Cerca de três séculos depois, Helena, mãe do imperador Constantino, o Grande (eleita santa pela Igreja romana), reconheceu esse local, dentre outros que marcaram a passagem terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mandou erigir muros, à maneira de uma torre, sobre os quais haviam sete janelas, por onde desciam os corpos para serem sepultados.

No séc. XII, os cruzados da Ordem Hospitalária (Cavaleiros de Malta) construíram sepulcros para cristãos falecidos em seu hospital. Atualmente, há um monastério, erigido em 1892, de cristãos da Igreja Ortodoxa Grega. Tanto dentro como nos arredores do convento, diversas sepulturas ainda são descobertas.

Vista atual de Akéldama. No alto do precipício, donde Judas deve ter se enforcado, vê-se o Monastério de São Onofre.

Assim, como escreveu o célebre autor espiritualista italiano, radicado no Brasil, Pietro Ubaldi, todo mal é escravo do bem [MARTINS, p. 90]. A desesperada ação do suicídio, gerado pelo remorso da traição, gerou uma obra útil a muitos.

Jorge D. Martins transcreveu as palavras de Pedro (ver Atos 1,25) ao referir-se a Judas na ocasião da escolha de Matias como novo apóstolo, tempos antes do Pentecostes: ele era contado entre nós e teve parte neste encargo. E mais: neste encargo e apostolado, do qual Judas se desviou para ir ao seu próprio lugar [ibidem]. Esse “seu próprio” lugar era Uma região do plano astral, compatível como o seu estado de confusão psíquica. Sendo a matéria dessa região ideoplástica, ela se adapta às emoções aflitivas do desencarnado, gerando sua própria cadeia espiritual [p. 91].

Após Judas ter sido resgatado de tal zona umbralina por Maria, mãe terrena de Jesus (em desdobramento espiritual, pois ainda estava encarnada, ver MARTINS, pp. 85-86), Matias, através da mediunidade, visualizou que o ex-traidor do Mestre foi acolhido e estava sendo tratado em uma casa transitória, no plano imaterial, ligada à Casa do Caminho de Jerusalém.

Esse abrigo, destinado aos Espíritos errantes resgatados, era dirigido pelo profeta Eliseu, discípulo e sucessor de Elias (ver 3 e 4 Reis e Eclesiástico 48), e supervisionado, num plano astral mais elevado, por João Batista, que anteriormente foi o próprio profeta Elias.

Talvez o Iscariotes tenha permanecido naquela casa, até poder reencarnar com outra identidade terrena. Geralmente, a nova existência terrena de um ex-suicida é muito breve, visto que os severos danos causados ao perispírito se refletem no novo corpo biológico, e prejudicam a saúde psíquica, em forma de graves doenças, como deformações genéticas ou congênitas, ou ainda em traumas causados por acidentes. Geralmente, em uma outra reencarnação, após resgatar as faltas em um corpo enfermo, o Espírito retorna à Terra em uma constituição físico-mental melhor.

Alusivamente à memória do Iscariotes, malhado ainda hoje pelos populares na Semana Santa, Joana d’Arc foi perseguida e escarneada pelos inimigos. Tal atitude ainda é observada em críticos incrédulos, que taxam-na como um caso de esquizofrenia impossível de ter sido diagnosticada em sua época.

Uma introdução ao assunto (texto logo abaixo da parte sobre o Cireneu): http://jensoares.blogspot.com.br/p/revelacoes-sobre-o-cireneu-e-judas.html
A REMISSÃO NA FRANÇA MEDIEVAL

ANTECEDENTES: SITUAÇÃO HISTÓRICA DA FRANÇA

Detalhe de iluminura representando uma batalha da Guerra dos Cem Anos.


Depois do importante desenvolvimento cultural e econômico dos séculos XII e XIII, os reveses do século XIV tiveram grande impacto sobre a Europa Ocidental. A causa foi um monstro de três cabeças: a guerra, a peste e a insurreição popular.

Nenhum país da Europa Ocidental esteve livre da guerra durante os séculos da Idade Média, mas as guerras do século XIV foram especialmente brutais e destruidoras. A mais sanguinária foi a chamada Guerra dos Cem Anos, na qual as rivalidades dinásticas entre Inglaterra e França, que existiam desde o ano de 1204 pela perda dos domínios angevinos na França [quando Filipe II da França tomou as regiões de Angers e Normandia dos ingleses], explodiram em conflito aberto.

[Atlas da história universal, The Times (em fascículos). Rio de Janeiro: O Globo, 1992-5, pp. 122-3, com adição]

O início da Guerra dos Cem Anos (1337-1453) está ligado à disputa pela sucessão do trono da França.

Tudo começou quando o rei francês Carlos IV faleceu sem deixar herdeiros diretos ao trono: fim da longa dinastia capetíngia fundada por Hugo Capeto em 987. Em 1328, havia dois pretendentes: Filipe de Valois e Eduardo III, rei da Inglaterra.

Filipe, nobre francês, era sobrinho do também falecido Filipe IV, o Belo. O inglês Eduardo era neto, por parte de mãe, do mesmo rei.

Os grandes senhores feudais franceses rejeitaram Eduardo baseando-se na Lei Sálica (criada pelos francos sálios, ancestrais dos franceses): o trono da França não poderia ser ocupado ou transmitido por linhagem materna. Portanto, o pretendente francês foi coroado rei Filipe VI (dando início à dinastia Valois).

A decisão da assembleia de nobres franceses foi de encontro aos interesses comerciais dos senhores ingleses, pois não garantia aos últimos o livre acesso aos ricos portos de Flandres (região da atual Bélgica e Países Baixos) controlados pela França. O local concentrava diversas manufaturas de tecido, que compravam a lã produzida na Inglaterra: enorme fonte de renda a diversos nobres ingleses.

Os comerciantes flamengos apoiaram o rei inglês, visto que os franceses impunham entraves feudais à lã inglesa que tanto necessitavam. Em 1337, utilizando o pretexto do direito ao trono da França, Eduardo cruzou o Canal da Mancha com 20 mil homens e tomou o controle da região de Flandres. Desta forma, o reino da França declarou guerra à Inglaterra.


Não se tratava de uma guerra entre dois povos constituídos em nações diferentes. Muitos ingleses eram normandos, ou seja, franceses que chegaram à Inglaterra com Guilherme, o Conquistador (1028-87); por outro lado, muitos franceses eram bretões, ingleses que habitavam há muito tempo o norte da França. Então, poderíamos afirmar que era uma guerra entre quase “patrícios”.

A Guerra durou mais de um século, entretanto, não foi contínua. Os combates efetivos ocorreram em menos da metade desse tempo, já que foram intercalados por tréguas ou armistícios.

Durante a 1ª fase (1337-1422) a superioridade militar inglesa ficou evidente. Em batalhas como Ecluse (1340), Crécy (1346) e Poitiers (1356) grande parte da nobreza francesa, servindo principalmente na cavalaria, pereceu. Em Poitiers, o rei, Jean ou João II da França, foi capturado. Em 1360, através de um tratado de paz humilhante, quase um terço da França era inglesa.

A Guerra dos Cem Anos testemunhou o surgimento das primeiras armas de fogo no Ocidente. De invenção chinesa (juntamente com a pólvora), o canhão inglês foi primeiramente usado na Batalha de Crécy, em 1346. As primeiras artilharias faziam mais barulho e fumaça do que estragos causados pela eficiência e pontaria das peças, porém, somente pela presença assustadora faziam a diferença ao abalar o inimigo.

Como se não bastasse a Guerra, havia agravantes à desgraça da França.

Os efeitos da Grande Fome (1315-17) se estenderam por décadas à maior parte da população, visto que séries de más colheitas comprometeram o já insuficiente abastecimento agrícola.

Entre 1347 e 1350, a Peste Negra, trazida do Leste por mercadores genoveses, grassou em diversas nações da Europa (25 milhões pereceram: um terço da população europeia da época).

Ilustração da Bíblia Toggenburg (1411) representando os efeitos da Peste Negra ou Bubônica.
Eis uma reportagem que aborda novas descobertas sobre a bactéria responsável pela peste, após análises das cepas (grupo de bactérias atuais descendentes de espécies antigas): http://noticias.terra.com.br/ciencia/pesquisa/cientistas-descobrem-causa-para-uma-das-maiores-pragas-da-humanidade,99ad935dc25d3410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

A burguesia de Paris, culpando a nobreza pelas derrotas sucessivas, exigia maior participação nas decisões políticas: primeiros sinais da crise do feudalismo na França.

O clima de revolta dominou muitos camponeses gerando as jacqueries (alusão a Jacques Bonhomme, denominação criada pelos nobres franceses para designar o homem do campo, algo como “zé-ninguém”). Em 1358, milhares de camponeses tomaram e incendiaram diversos castelos para saquear e assassinar senhores e vassalos (movimento semelhante, popular e fanático, rompeu cerca de quatro séculos depois na Revolução Francesa). A nobreza reagiu à “afronta” e, com o apoio do exército real, em trégua com os ingleses, sufocou a rebelião com uma hecatombe: executaram 20 mil pessoas.

O retrato do caos: Iluminura da época representando um assalto dos jacques a um cavaleiro (nobre).

Em 1364, a Guerra foi reiniciada quando Carlos V subiu ao trono francês. O rei conseguiu reorganizar o exército e retomou grande parte dos territórios dos ingleses. Porém, com a morte do monarca, houve uma cisão entre os senhores que disputavam o poder. Surgiram dois partidos: armagnacs e borgonheses (ou borguinhões). Outra guerra, dessa vez civil, iniciou-se.

O estopim da cisão da França: o assassinato, nas ruas de Paris, de Luís I, o Duque de Orleans (um dos filhos de Carlos V), em 1407, arquitetado por João II, Duque da Borgonha, dito “João Sem-Medo” (primo de Carlos VI e regente interino da França durante as crises de loucura do rei). João foi morto, em 1419, por homens do rei Carlos VII. Os litígios políticos entre armagnacs e borgonheses perduraram, oficialmente, até 1435. A iluminura acima representa o séquito fúnebre do Duque de Orleans.

Após anos de lutas internas, os armagnacs obtiveram o domínio do reino. Os borgonheses, feridos no orgulho, aliaram-se ao inimigo inglês, que voltou a superar os franceses inimigos. Em 1420, o Tratado de Troyes pôs o rei da Inglaterra, Henrique V, no trono da França dominada.

Carlos VI da França (1368-1422) foi no início chamado de “O Bem-Amado” e depois de “O Louco”. O autor espírita Léon Denis comentou, alegoricamente, que na ocasião da aclamação de Henrique V como rei da Inglaterra e França, na Basílica de Saint-Denis, os restos dos […] monarcas [franceses], sob as pesadas lápides de seus túmulos, por certo fremiam de vergonha e de dor [DENIS, Léon. Joana d’Arc: médium. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2002, 20ª ed., p. 28, com adição].
Em 1422, a nação estava dividida: as terras do Norte (a maior parte) pertenciam à Inglaterra e aos borgonheses, as terras do Sul eram dos senhores armagnacs e do rei, ou melhor, delfim (príncipe herdeiro e primeiro da linha sucessória do trono francês): o fraco e acuado Carlos de Valois, futuro Carlos VII da França.

Este “rei”, aos 19 anos, recebeu uma corte bastante conturbada:

– O pai, o recém-falecido Carlos VI, que sofria de distúrbios mentais, pouco pode fazer a não ser casar a filha, Catarina de Valois, com o rei inglês, Henrique V, e assinar o vergonhoso tratado que deserdou o filho ao trono;

– A mãe do jovem monarca, Isabel da Bavária, vendo vantagens no domínio da Inglaterra, pôs dúvidas à legitimidade do filho;

– O empobrecimento do tesouro real com os gastos da guerra (impossibilidade de manter um grande exército) e altas dívidas com burgueses inescrupulosos aumentavam a crise.

– Entre os cortesões e palacianos, havia a constante ameaça de conluio com o inimigo e golpe de Estado;

– Não podendo ser coroado tradicionalmente na Catedral de Reims (sob o domínio inglês), o indolente e licencioso Carlos VII chegou à iminência da renúncia.

Detalhe do retrato de Carlos VII (1403-1461), dito “O Vitorioso” ou “O Bem-Servido”.

Léon Denis revela que o Espírito Joana d’Arc não apenas perdoou, mas conseguiu reunir alguns dos seus inimigos e traidores, em reencarnações entre os séculos XIX e XX, para trabalharem em prol do Espiritismo. Sobre a pessoa que foi um dia rei da França, o autor afirmou:

Carlos VII, reencarnado num desconhecido burguês, acabrunhado de enfermidades, foi muitas vezes distinguido com a visita da “filha de Deus”. Iniciado nas doutrinas espiritualistas, pode comunicar com ela, receber seus conselhos, seus incitamentos. Uma única palavra de censura lhe ouviu: “A nenhum, disse lhe um dia Joana, me custou tanto perdoar como a ti.”

[DENIS, p. 255]

A traição vinda dos próprios filhos (borgonheses), e o sangue derramado entre irmãos, pôs a pátria-mãe francesa em situação gravíssima. Se o equilíbrio não fosse restabelecido, a França logo desapareceria. Então, o Alto providencialmente enviou, em 1429, a salvação… vinda de uma afastada e desconhecida aldeia da Lorena.

Fonte de consulta: VICENTINO, Cláudio. História geral. São Paulo: Scipione, 2002, pp. 147-50.

Mapa, em francês, da França dividida e do percurso feito por Joana d’Arc de 1429 a 1431.
Denis assim resume o triste quadro da França:


Depois de encarniçada resistência, no curso de um cerco que excede em horror a tudo quanto a imaginação possa engendrar de lúgubre, Rouen [Ruão] teve que capitular. Paris, cuja população é dizimada pelas epidemias e pela fome, está nas mãos dos ingleses. O [rio] Loire os vê nas suas margens. Orleães, cuja ocupação entregaria ao estrangeiro o coração da França, resiste ainda; mas, por quanto tempo fará?

Vastas superfícies do país se encontram mudadas em desertos; as aldeias abandonadas. Só se vêem sarças e cardos [ervas daninhas] brotando livremente das ruínas enegrecidas pelo incêndio; por toda parte os sinais das devastações da guerra, a desolação da morte. Os camponeses, desesperados, se ocultam em subterrâneos, outros se refugiam nas ilhas do Líger (Loire), ou procuram abrigo nas cidades, onde morrerem famintos. Muitas vezes, tentando escapar à soldadesca, os desgraçados emigram para os bosques, se agrupam em hordas e logo se tornam tão cruéis como os bandidos, a cuja sanha fugiram. Os lobos rondam os cadáveres deixados insepultos.

[…] O delfim [príncipe herdeiro do trono francês] Carlos, despojado e chamado por irrisão “o rei de Burges (Bourges)”, se entrega ao desânimo e à inércia. Faltam-lhe engenho e valor […].

A França se sente perdida, ferida no coração. […] Que socorro se poderia, com efeito, esperar? Nenhum poder da Terra é capaz de realizar este prodígio: a ressurreição de um povo que se abandona. Há, porém, outro poder, invisível, que vela pelo destino das nações. No momento em que tudo parece abismar-se, ele fará surgir do seio das multidões a assistência redentora.

Certos presságios parecem anunciar-lhe a vinda. Já, entre outros sinais, uma visionária, Maria d’Avignon, se apresentara ao rei; vira em seus êxtases, dizia, uma armadura que o céu reservara para uma jovem destinada a salvar o reino. Por toda a parte se falava da antiga profecia de Merlin [médium e sacerdote druida da Antiguidade], anunciando uma virgem libertadora, que sairia de Bois Chesnu [nome do outeiro, com cimo coberto de mata, próximo à casa de Joana].

E como um raio de luz, vindo do alto, em meio dessa noite de luto e de miséria, apareceu Joana.

Escutai, escutai! Do extremo dos campos e das florestas da Lorena ressoou o galope de seu cavalo. Ela acorre; vai reanimar este povo desesperado, reerguer-lhe a coragem abatida, dirigir a resistência, salvar da morte a França.

[DENIS, pp. 28-9, com adições]

Joana em armas e orando, pintura de 1904, da inglesa Annie Louisa Swynnerton.
O SEXO DE JOANA e TABU DA VIRGINDADE FEMININA

Quanto à questão da incompatibilidade dos sexos entre Judas Iscariotes e Joana d’Arc, os Espíritos mentores há tempos esclareceram a questão, através da coordenação kardequiana:

[Pergunta] 201 – O Espírito que animou o corpo de um homem pode, em uma nova existência, animar o de uma mulher e vice-versa?

[Resposta] – Sim, são os mesmos Espíritos que animam os homens e as mulheres.

[Pergunta] 202 – Quando está na erraticidade [Além], o Espírito prefere encarnar no corpo de um homem ou de uma mulher?

[Resposta] – Isso pouco importa ao Espírito. Depende das provas que deve suportar.

[Observação de Kardec] – Os Espíritos encarnam como homens ou mulheres, porque não têm sexo. Como devem progredir em tudo, cada sexo, assim como cada posição social, lhes oferece provas, deveres especiais e a ocasião de adquirir experiência. Aquele que encarnasse sempre como homem apenas saberia o que sabem os homens.

[KARDEC, Allan. Livro dos espíritos. Trad. Renata Barboza da Silva, Simone T. N. Bele da Silva. São Paulo: Petit, 1999, pp.104-5, com adições]

Na primeira década do século XX, Léon Denis – patrício e sucessor de Allan Kardec no desenvolvimento e divulgação da Doutrina Espírita – semelhante à “médium-santa” Helena, indicando os lugares de peregrinação na Terra Santa, percorreu sítios frequentados por Joana d’Arc, no coração da França, realizou pesquisas bibliográficas e revelou ao mundo mensagens autênticas da Virgem Guerreira, a fim de compor uma biografia, sob a visão espírita: Joana d’Arc: médium.



Procurou também resgatar a memória de Joana junto aos compatriotas ingratos, pois muitos, incrédulos e materialistas, consideram-na uma grande farsa histórica.

Léon Denis, que além de estudioso era médium ostensivo, sentiu a presença do Espírito Joana d’Arc antes e durante a concepção do livro:

voltando-lhe ardente simpatia, consagrando-lhe terna veneração e vivo reconhecimento, escrevi este livro. Concebi-o em horas de recolhimento, longe das agitações do mundo. […] vindo do Alto, um raio de luz me ilumina todo o ser e esse raio emana do Espírito de Joana. Foi ele quem me esclareceu e guiou na minha tarefa.

[DENIS, p. 313].

Denis documentou a aparência “máscula” de Joana, no cárcere (para não atiçar os desejos dos homens), além da coragem e alta habilidade bélica no campo de batalha, que não consentia em abandonar as vestes masculinas e este ato de pudor lhe era profligado como um crime! [idem, p.124].

O retrato mais antigo de Joana d’Arc foi pintado por volta de 1485, ou seja, cerca de 50 anos após sua morte. Pinturas suas contemporâneas não sobreviveram ao tempo.
Diversos relatos, da época, ressaltam seus traços delicados e belos de mulher muito jovem, no entanto, durante sua vida militar, vestia-se como soldado, para não diferenciar-se dos companheiros, inclusive quanto ao corte de cabelo: “eram pretos e cortados curtos em escudela, de maneira a formarem na cabeça uma espécie de calota, semelhante a um tecido de seda escura.” [p. 242].

Retratos (atuais) mais próximos da realidade sobre a aparência de Joana d’Arc.

Denis, quanto ao gênero ou sexo de Joana, ainda acrescenta:

Uma questão aqui se impõe. Por que escolheu Deus a mão de uma mulher para tirar a França do túmulo? […] Seria […] porque a mulher é superior ao homem pelos sentimentos, pela piedade, pela ternura, pelo entusiasmo? Sim, sem dúvida, e aí está o segredo da abnegação da mulher, de seu espírito de sacrifício.

[…]

Porém, a tal escolha presidiu razão de ordem mais elevada. Se Deus, aquilatando da fraqueza dos fortes e da prudência dos avisados, preferiu salvar a França por intermédio de uma mulher, de uma menina, quase uma criança, foi, sobretudo, para que, comparando a fragilidade do instrumento com a grandeza do resultado, o homem não mais duvidasse; foi para que visse claramente, nessa obra de salvação, o efeito de uma vontade superior, a intervenção da potência eterna.

[pp. 228-9]

Detalhe de Joana d’Arc na coroação de Carlos VII na Catedral de Reims (1854), de Jean Auguste Dominique Ingres.

Para o Espiritismo, ser ou não virgem, não suplementa ou retira o mérito de alguém, porque o que importa, para Deus, são os pensamentos e atos, ou seja, o caráter moral da pessoa e o esforço que ela faz para melhorar-se.

Entretanto, à época de Joana (do catolicismo medieval), esse indício de “pureza física” era um fator imprescindível, que validava Joana d’Arc como sendo a “escolhida pela Divindade”. Ao olhos da Igreja, Joana, mulher solteira, deveria ser virgem para ser vista como “pura”. E, inspirada e orientada pelo Alto, foi aprovada em todos os exames a que foi submetida:

Joana ainda teve que suportar muitas humilhações e sofrer exame feito por matronas, para verificação de sua pureza [virgindade fisiológica]. […] comparece diante de uma comissão de inquérito, composta de uma vintena de teólogos […].

“Era um belo espetáculo […] vê-la disputar, ela, mulher, contra os homens; ignorante, contra os doutores, só, contra tantos adversários.”

[p. 87, com adição]

Aliás, a virgindade da mulher, há tempos, está ligada à religião. Na cultura greco-romana, as vestais eram sacerdotisas, dos templos da deusa Vesta, que, obrigatoriamente, tinham que ser virgens para guardar o fogo sagrado, o qual garantia a segurança e bem-estar da nação. Como assegurou Ovídio, É um fogo casto; a união dos sexos deve ser afastada para longe da sua presença [FUSTEL DE COULANGES, Numa Denis. A cidade antiga. Trad. Roberto L. Ferreira. São Paulo: Martin Claret, 2009, p. 40].

Pintura de Frederick Leighton, de 1882-83, representando uma vestal, sacerdotisa virgem, em transe ou êxtase (estado mediúnico-sonambúlico).


A mãe de Jesus Cristo, Maria de Nazaré – a mais nobre de todas as virgens eleitas santas cristãs – não escapou a essa relação. Os dogmas teológicos, para validarem antigas profecias judaicas (ver Isaías 7, 14), garantem que Nossa Senhora foi fecundada pelo Espírito Santo (um milagre ou dogma), por isso sua virgindade carnal permaneceu incólume, mesmo após casar com José e dar à luz, de forma natural, a Jesus.

Ora, não desrespeitando os irmãos católicos, mas, para os espíritas, parece lógico que a virgindade de Maria, a qual se referiam as Escrituras, estava relacionada à parte MORAL, não biológica ou física. Não há pecado (mal, falta, erro) algum numa mulher casada, sobretudo oficialmente, e grávida do marido legítimo, mesmo considerando a possibilidade dela vir a gerar o Filho de Deus.

O Pai Celeste, mais sábio do que nós, jamais consideraria indigna tal mulher. Menos ainda necessitaria usar meios “sobrenaturais” para gerar o Messias. Acham que não poderia assim fazê-lo através de outro honrado instrumento chamado José, honesto carpinteiro de Nazaré?

Então, o problema maior está na questão da prática sexual entre homens e mulheres, necessária (antes da fertilização in vitro) para que exista a reprodução humana.

Detalhe de Anunciação (c.1644), de Philippe de Champaigne.

A Virgem Maria é frequentemente retratada junto a lírios brancos (neste caso, sendo portados pelo arcanjo Gabriel), os quais simbolizam a virgindade ou pureza e a realeza (por séculos, a flor fez parte do brasão da monarquia francesa).

Maria foi visitada por um arcanjo (Espírito Superior) – uma comunicação mediúnica semelhante a vivida por Joana – para ser esclarecida sobre a “gravidez divina” (Mateus 1:18-21 e Lucas 1:26-38).

A interpretação de várias igrejas cristãs sobre a virgindade fisiológica de Maria, mãe de Jesus Cristo, pode ter sido gerada devido a uma má tradução bíblica do hebraico para o grego.

Um dos problemas importantes da [Bíblia] Septuaginta [assim chamada porque teria sido feita por setenta sábios judeus que viviam no Egito por volta do ano 200 a.C., segundo a tradição] talvez seja a passagem na qual a palavra hebraica “almah”, que designa uma jovem do sexo feminino que ainda não teve filhos, foi traduzida como “parthenos”, que normalmente (mas nem sempre) significa “virgem” em grego. Foi essa passagem, do livro do profeta Isaías, que serviu de base para a ideia de que a concepção virginal de Maria nos Evangelhos cumpre a profecia de Isaías.

Fonte: http://darwinedeus.blogfolha.uol.com.br/2015/02/26/5-mitos-sobre-a-biblia-manipulada/

Por séculos, a teologia católica considerou o sexo e o prazer gerado por ele como coisas impuras. Vê-se aí uma contradição, pois não foi o homem que criou os órgãos sexuais, o ato e o prazer sexual fisiológico (a sensação gozosa interpretada pelo cérebro durante o estímulo das zonas erógenas). Lembramos que os animais sexuados utilizam-se do sexo. Tanto esses animais quanto os humanos precisaram dele para perpetuarem as respectivas espécies. Se fosse ruim – causa de sofrimentos eternos -, Deus não teria criado o sexo, visto que Ele é perfeito.

A questão está no mau uso que as pessoas fazem do comportamento sexual. Deus é perfeito, mas o homem ainda não é (Sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus – Mateus 5, 48). Diferente dos animais irracionais, o Criador cedeu-nos o livre-arbítrio, para que nós, através dos próprios méritos, com erros e acertos, sejamos capazes de atingir a perfeição: a retidão moral não apenas perante o sexo, mas em todos os aspectos da vida.

Voltando ao assunto Joana d’Arc… como já foi dito, a sociedade do século XV exigia que a “Representante de Deus” fosse virgem. A fim de não retirarem a credibilidade da médium, que deveria continuar elevando o ânimo do massacrado povo francês, a Providência Divina ajudou a preservar a virgindade fisiológica de Joana. Portanto, ela permaneceu donzela para si mesma e para a França até o fim de sua missão terrena.

Aos que até hoje duvidam da existência de sua virgindade e pureza, física e moral, frente às investidas de violação no cárcere, Denis expôs que a proteção dos Espíritos sempre esteve presente, inclusive nessa hora nefasta:

Ora bem, eis aqui! Nessas horas terríveis, que lhe causavam mais terror do que a própria morte, o invisível intervem. Uma legião radiosa se introduz na gélida e sombria prisão. Seres que só ela vê e aos quais chama “seus irmãos do paraíso”, vêm cercá-la, ampará-la, dar-lhe as forças necessárias para resistir ao que teria sido um sacrilégio abominável.

[DENIS, p. 126].

O sangue que saiu da Pucela, que podemos interpretar como o único “defloramento” de seu corpo virginal (além das feridas que recebeu na prisão), foi causado por ferimentos de combate, a exemplo do dardo que a acertou no ataque às Tourelles, fato previsto por ela na véspera: “Amanhã sairá sangue de meu corpo” [idem, p. 51].

Como uma vestal medieval, Joana d’Arc portou o fogo sagrado do patriotismo francês. Infelizmente, logo foi consumida pelas chamas da perfídia.

NATUREZA MESSIÂNICA e IDEAL DE PÁTRIA EM JOANA

Pintura de Howard David Johnson (c.2000): Joana d’Arc estava constantemente acompanhada dos Espíritos bons.
Léon Denis expõe sua natureza “crística”:

[…] Como quase todos os emissários divinos, ela, baixando à Terra, fez sua aparição entre os mais pobres, os mais obscuros. Sua infância tem este traço de comum com a do Cristo. É uma lei da História e uma lição de Deus: o que há de mais elevado provém do que há de mais rasteiro. O Cristo foi o filho de um carpinteiro humilde; Joana d’Arc uma camponesa nascida no seio do pobre povo da França. Nenhum dos dois messias, vindo ao mundo, escolheu para embalar o berço, a ciência ou a riqueza.

[idem, p. 230]

Joana era um “messias”. Denis ratificou essa definição transcrevendo as palavras de um Espírito guia (João, discípulo de Paulo):

Quando os homens se esquecem do dever, Deus lhes manda um mensageiro, um auxiliar para que possam cumprir com mais facilidade e também mais ativamente a tarefa que lhes incumbe. A esses auxiliares é que podeis dar o nome de messias. Nos momentos em que as almas se acobardam, eles fazem ouvir suas vozes inspiradas, mostrando a verdade a chamar os homens. Notai, com efeito, que sempre surgem nas horas de crise, quando tudo parece que desmorona, ao embate da ardorosa luta dos interesses e das paixões. Assemelham-se ao vento da tarde, que pacifica as vagas ululantes e revoltas durante a tormenta do dia.

[p. 227].

Por que Deus escolheu ajudar justamente a França? Há milhares de anos muitas outras nações surgiram e foram varridas nas tormentas da História!

Pintura de 1876 de Eugene Thirion representando o chamado espiritual da pastora Joana, que largou seu fuso (instrumento artesanal para enrolar os fios de lã crua) para empunhar a espada.
Para os espíritas, o Espiritismo é a Terceira Revelação divina procedendo das Leis Mosaicas e do Evangelho de Jesus Cristo. A Doutrina, não por acaso, surgiu em solo francês. Provavelmente, o desaparecimento da França atrasaria, em séculos, o brotar da revelação trazida pelos Espíritos e organizada por Allan Kardec, cujo marco histórico foi a primeira publicação do Livro dos Espíritos, em 1857. Baseado nisso, e em demais qualidades, a exemplo do princípio de democracia e república modernas, cimentadas a partir da Revolução Francesa, Denis defendeu sua pátria:

Joana é um desses messias. Deus a envia para salvar um povo que agoniza e ao qual, entretanto, grandes destinos estão reservados. A França fora escolhida para desempenhar importante papel no Planeta. Sua história o provou. Dispunha para tal fim das qualidades necessárias. Certamente se poderá dizer que há outras nações mais sérias, mais refletidas, mais práticas. Nenhuma, porém, possui os impulsos do coração, a generosidade um pouco aventurosa, que têm feito da França o apóstolo, o soldado da justiça e da liberdade do mundo. Todavia, ela não poderia desempenhar o papel que lhe estava predestinado, senão sob a condição de manter-se livre e eis que suas faltas a arrastaram a dois passos de uma perda completa. Por ocasião do aparecimento de Joana, acreditava-se, dizia-se mesmo em toda a Europa, que findara a missão da França, daquele povo varonil que se ilustrara por tantos feitos gloriosos. Fora ela especialmente quem criara a cavalaria, quem suscitara as cruzadas e fundara as artes da Idade Média. Pertencia-lhe a iniciativa do progresso no Ocidente. E, no entanto, os recursos humanos se mostravam todos insuficientes para salvá-la. O que, porém, os homens já não podem fazer, um Espírito superior vai realizar com o socorro do mundo invisível.

[p. 228].

O nascimento do Espiritismo – e diversos outros avanços indispensáveis à evolução da Humanidade – ocorreu na França. Por isso esta nação, como a conhecemos, não poderia deixar de existir. Francisco Cândido Xavier, inspirado por Espíritos amigos, esclareceu:
Por que Joana D’Arc fez a guerra e foi considerada santa?

— Naquela época, os Espíritos encarregados da evolução do Planeta estavam selecionando os genes que viriam a servir na formação do corpo da plêiade de entidades nobres que reencarnariam para ampliar o desenvolvimento geral da terra, através do chamado Iluminismo Francês. Era preciso cuidado para que os corpos pudessem suportar a dinâmica das inteligências que surgiriam. Se a França fosse invadida, perde-se-ia o trabalho de muitos séculos. Então Joana D’Arc foi convocada para que impedisse a invasão, a fim de que se preservassem as sementes genitais, para a formação de instrumentalidade destinada aos gênios da cultura e do progresso que renasceriam na França, especialmente em se tratando da França do século XIX que preparou, no mundo, a organização da era tecnológica que estamos vivendo no século XX.

[Do Livro Chico, de Francisco, de Adelino da Silveira. Capítulo “Conversas do Chico com Emmanuel 2”, Editora Cultura Espírita União, CEU]


Joana d’Arc, igual a todos nós, viveu milhares de existências terrestres, através de sucessivas e inúmeras reencarnações. Como todos nós, não reencarnou em determinada nação por acaso. Após períodos reencarnatórios na Palestina, e demais regiões, obteve um forte vínculo à pátria francesa. O “espírito francês” sempre esteve ligado à antiga cultura dos druidas:

Os druidas eram os sacerdotes ou ministros religiosos das antigas nações celtas da Gália, Bretanha e Germânia. Toda a informação que possuímos a respeito deles vêm dos escritores gregos e romanos, comparado ao que ainda resta da poesia gaélica.

Os druidas combinavam as funções de sacerdote, magistrado, erudito e médico. Eram considerados pelos povos celtas como os brâmanes na Índia, os magos na Pérsia, e os sacerdotes no Egito, diante de seus respectivos povos. Os druidas pregavam a existência de um deus a quem davam o nome de Be’al, que, segundo os estudiosos, significa a vida de tudo ou a fonte de todos os seres […]. Os escritores latinos afirmam que os druidas também adoravam uma infinidade de outros deuses inferiores.

Não usavam imagens para representar o objeto de sua adoração, nem se reuniam em templos ou edifícios de nenhuma natureza para a realização de seus ritos sagrados. Seu santuário era formado por um círculo de pedras (geralmente pedras de tamanho grande) fechando uma extensão de vinte pés [c.6 m] e trinta jardas [c.27 m] de diâmetro. O mais famoso desses lugares encontra-se em Stonehenge, na planície inglesa de Salisbury.

[…]

Não resta dúvida de que os druidas ofereciam sacrifícios às suas divindades. Contudo, não se sabe ao certo sobre o tipo de sacrifício que ofereciam, e muito menos sobre as cerimônias relativas a essas práticas religiosas. Os escritores clássicos (romanos) afirmam que eles ofereciam sacrifícios humanos nas grandes ocasiões […]. Muitas tentativas foram feitas por parte de escritores celtas a fim de desmentir o testemunho dos historiadores romanos, mas sem sucesso.

[BULFINCH, Thomas. O livro da mitologia: história de deuses e heróis. Trad. Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2006, 447-8, com adições]

Imagem da Paróquia da Santíssima Trindade (Rio de Janeiro-RJ).

Sobre o assunto, Léon Denis deu-nos certas informações, com o auxílio de Espíritos amigos:

Algumas [reencarnações anteriores de Joana d’Arc] foram brilhantes, vividas sobre os degraus de um trono; outras obscuras; todas, porém, de resultados fecundos para o seu próprio adiantamento e benéficas para os seus semelhantes.

As primeiras transcorreram durante o período céltico, no país de Armor [Armorique ou Armórica, na Bretanha, extremo Noroeste da França, território ocupado pelos bretões vindos do Oeste da Grã-Bretanha na Antiguidade]. Lá é que a sua personalidade se impregnou dessa natureza particular, feita de ideal, de intrepidez e de mística poesia, que a caracteriza no décimo quinto século.

Desde a infância em Domremy [aldeia natal de Joana], aprazia-lhe frequentar os lugares onde se celebraram os ritos druídicos […]. Entre seus guias invisíveis, poder-se-ia deparar com Espíritos protetores das Gálias [antigas denominações das terras do Império Romano na França], os mesmos que em todas as eras prestam assistência aos filhos de Artur e de Merlin e dão aos que lutam por uma causa nobre a vontade e o amor que conduzem à vitória.

[pp. 201-2, com adições]

Denis faz questão de ligar Joana d’Arc à natureza céltica, druídica e gaulesa:

… [Em Joana D’Arc] podiam descobrir os característicos de suas vidas célticas e o menos remotos de suas existências de patrícia, de grande dama amante das vestes suntuosas e das belas armaduras. O que nela, das primeiras, sobretudo, persiste é a forma particular e bem acentuada do misticismo dos druidas e dos bardos, isto é, a intuição direta das coisas da alma, intuição que reclama uma revelação pessoal e não aceita a fé imposta; são as faculdades de vidente, peculiares à raça céltica, tão disseminadas nas origens de nossa história e ainda hoje observadas em certos meios étnicos, especialmente na Escócia, na Irlanda e na Bretanha armoricana. Só pelo uso metódico dessas faculdades se pode explicar o conhecimento aprofundado que os druidas tinham do mundo invisível e de suas leis. A festa de 2 de Novembro, a comemoração dos mortos, é de fundação Gália. Os gauleses praticavam a evocação dos defuntos nos recintos de pedra. As druidisas e os bardos obtinham os oráculos.

[…]

[…] os gauleses evocavam os Espíritos nas circunstâncias graves.

[p. 214, com adição e sublinhos]

Representação de cerimônia druídica em Stonehenge, na Inglaterra.
Joana d’Arc e o Espiritismo nasceram no coração da França por bons motivos:

Tais são os princípios básicos da filosofia druidesa; em primeira linha, a unidade de Deus. O Deus dos Celtas tinha por templo o infinito dos espaços, ou as guaridas misteriosas dos graneis bosques e era, acima de tudo, força, vida, amor. Os mundos que marchetam as regiões etéreas são as estações das almas, na ascensão para o bem, através de vidas sempre renascentes, vidas cada vez mais belas e felizes, segundo os méritos adquiridos. Intima comunhão une os vivos da Terra aos defuntos, invisíveis, mas presentes. Este preceito enriquece o espírito de superiores noções sobre o progresso e a liberdade. Graças a ele, o Celta introduziu no mundo o gosto pelo ideal, coisa que jamais conheceu o Romano, amante das realidades positivas. O Celta é inclinado às ações nobres e generosas. Da guerra, aprecia a glória, não o proveito. Pratica a abnegação, despreza o medo, desafia a morte.

Daí, a atitude que guarda nos combates […].

Estudai bem Joana d’Arc e descobrireis nela todos esses sentimentos e gostos. Joana é como que uma síntese do que de mais puro e de mais eminente encerram a alma céltica e a alma francesa, razão por que sua memória fulgirá sempre, qual estrela, no firmamento nuvioso da pátria.

[…]

Nela se manifestam todas as modalidades, todos os sinais indicativos das faculdades que constituem o dom dos videntes e das druidisas. Médium por excelência, foi o instrumento de que os Espíritos protetores da Gália, que se tornara a França, lançaram mão para salvar este país. Ora, ao êxito de uma obra de salvação, é mister que o salvador de um povo seja produto dos mais puros elementos de sua substância, rebento das raízes vigorosas de suas origens e de toda a sua História. Joana o foi no mais elevado grau. Eis porque encarna o duplo gênio da Gália e da França cristã.

[pp. 215-6].

Joana d’Arc, de 1882, do pintor pré-rafaelista inglês Dante Gabriel Rossetti.
O próprio Espírito Joana d’Arc ratificou o assunto em mensagem mediúnica publicada, em janeiro de 1898, na Revue Scientifique et Morale du Spiritisme. Vejamos seu principal trecho:

Múltiplas foram as experiências que contribuíram para o meu progresso espiritual. Decorreram na velha Armorica, sob o zimbório dos grandes robles [espécie de carvalho] seculares, cobertos do visco [tipo de planta trepadeira] sagrado. Foi lá que, lentamente, me encaminhei para o estudo das leis do Espírito e para o culto da pátria.

[p. 204, com adições]

As mulheres celtas tinham direitos praticamente iguais aos dos homens, inclusive ao tomar lugar nas linhas de batalha. Boudica (falecida entre 60 e 61 d.C.) e Cartimandua (reinado de 43 a 69 d.C.) foram rainhas de tribos celtas que viveram em regiões da atual Inglaterra ocupadas pelos romanos. Ambas lutaram bravamente entre os soldados semelhante a Joana d’Arc.

Os druidas criam na milenar sequência de vidas sucessivas, denominadas pelo Espiritismo de “reencarnação”, como sintetiza a inscrição, traduzida do francês, no túmulo de Kardec (Prof. Rivail), em Paris (em forma de trilito druídico): Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei.

Guardando as devidas proporções evolutivas, os druidas eram racionais em suas doutrinas; estudavam a Natureza e as forças físicas. O Prof. Hippolyte Denizard Rivail (1804-1869), organizador do Espiritismo, no século XIX, foi, em existência pretérita, um desses sacerdotes célticos no tempo das Gálias, por isso assumiu seu antigo nome druídico (heterônimo) revelado por um Espírito amigo, Allan Kardec, para que não confundissem as obras espíritas (ligadas a Kardec) com seu trabalho como pedagogo (ligado a Rivail).

Ilustração provavelmente do século XIX representando um dos primeiros reformadores do cristianismo (antecessor de Lutero), o boêmio ou tcheco Jan Hus (c.1369-1415), pregando aos populares no campo. Nota-se, curiosamente, que Hus parece estar debaixo de um carvalho que aloja um visco: vegetais sagrados usados nos rituais dos antigos druidas. Segundo fontes espíritas, Hus foi uma das reencarnações de Allan Kardec.

Em pesquisa biográfica sobre Kardec, feita pelo Dr. Canuto de Abreu, em O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária, a jovem médium auxiliar do Prof. Rivail, Caroline Baudin, revelou em época próxima ao surgimento da Doutrina Espírita, em 1855: Jeanne [d’Arc] certa vez me disse: – muitos antigos gauleses estão no espaço e na Terra promovendo a reforma religiosa da França [MONTEIRO, Eduardo C. Allan Kardec: o druida reencarnado. São Paulo: Eldorado, out. 1996, 2ª ed., p. 17, com adição].

Aliás, a missão divina da Pucela foi prevista pelos druidas séculos antes de seu nascimento. Durante a humilhante dominação romana, a partir do século I a.C., alguns gauleses pensaram que a profecia se referia a algum guerreiro que os libertassem de Roma, mas o “Messias da França” só veio muito tempo depois, para ajudá-los na expulsão dos ingleses: Joana D’Arc fora anunciada por uma profecia do bardo Myrdwyn ou Merlin [MONTEIRO, p. 84].

Druidesa (1868), de Alexandre Cabanel.

A expulsão da cultura druídica pelos romanos abriu espaço à perseguição das autoridades cristãs, e aos primitivos invasores bárbaros; jogou-se assim por terra a verdade cultivada em Armórica. No entanto, Joana e Kardec sempre portaram no inconsciente a sabedoria druídica. Em 1858, em artigo da Revista Espírita, Kardec aceitou o fato de que havia uma identidade entre o Espiritismo e o Druidismo.

Em verdade, o Espírito que foi um dia Judas Iscariotes já havia se depurado bastante, antes mesmo de usar a vestimenta carnal chamada Joana d’Arc. Carregava, portanto, todas as qualidades necessárias à salvação da França.

ela vem de um mundo mais brilhante do que o nosso. Desde tempos remotos, conheceu magnificências ao lado das quais toda aquela encenação [a corte de Carlos VII] é por demais descolorada. Muito para lá de Domremy, muito para além da Terra, em épocas que lhe precederam o nascimento, frequentou moradas mais gloriosas do que a corte de França e disso guardou a intuição.

[p. 85, com adição]

A existência como virgem mártir do século XV – justamente no final da “Idade das Trevas”: o período medieval – foi apenas a cota que lhe faltava, para encerrar suas dívidas reencarnatórias na Terra.

DA PAZ NO CAMPO AOS CAMPOS DE BATALHA

 

Joana d’Arc pastora, de Jules-Eugène Lenepveu (1889).


Por aquele tempo, Jesus pronunciou estas palavras: Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos (Mateus 11, 25).


Joana (Jeanne, no idioma original) veio ao mundo como uma pastora de ovelhas analfabeta. Natural do vilarejo de Domremy (hoje Domrémy-la-Pucelle), nascida por volta de outubro (para outros, em 6 de janeiro) de 1412. Povoado cortado pelo manso rio Mosa (Meuse), na região da Lorena (Lorraine), a alguns quilômetros da fronteira do extinto Sacro Império Romano-Germânico (onde hoje, ao Leste, está a fronteira alemã), no nordeste da França. A casa paterna, modificada no passar dos séculos, ainda é visitada por turistas.

A menina, apelidada de Jeannette (Joaninha), sempre foi filha exemplar: dedicada aos duros labores do campo, à família, pátria, religião e ao próximo. Seus pais eram os pobres camponeses Jacques d’Arc (1380-1440) e Isabelle Romée (1377-1458). Joana, a mais velha, tinha quatro irmãos (uma irmã e três irmãos).

Detalhe de Joana d’Arc (1884), do brasileiro Pedro Américo.
O sobrenome talvez seja uma referência à procedência de seus antepassados paternos: a antiga comuna de Arc (atual Arc-et-Senans), no leste da França, a alguns quilômetros da fronteira com a Suíça.

Igual a maioria dos aldeões, frequentava, aos domingos, a Igreja de São Remo (Saint-Rémy), onde foi batizada. Um apóstolo do Cristo em forma de menina:

ignorava todas as coisas da guerra. Era uma boa e meiga criança, amada por todos, especialmente pelos pobres, pelos desgraçados, aos quais nunca deixava de socorrer e consolar. […]. Cedia de boa-mente a cama a qualquer peregrino fatigado e passava a noite sobre um feixe de palha, a fim de proporcionar descanso a anciães extenuados por longas caminhadas. Cuidava dos enfermos, como por exemplo do pequeno Simon Musnier, seu vizinho, que ardia em febre; instalando-se-lhe à cabeceira, velava-lhe o sono.

[p. 32]

Val d’Aosta, de John Brett (1858). Imagem bucólica similar a vida de Joana d’Arc em sua terra natal: uma jovem pastora cercada por bosques e montanhas.

Antes de ver e ouvir as “vozes do Céu”, sentia-as… no balir de suas ovelhas, no farfalhar dos ramos das árvores, no sussurro da fresca brisa, no bailar da relva alta, no perfume das flores campestres, no sabor das amoras silvestres, no voo colorido das borboletas, nas nuvens douradas da aurora, no gorjeio matinal das aves, nos beijos frios da chuva em seu rosto, no canto dos grilos ocultos pelo véu noite, no murmúrio das águas do Mosa, no cintilar eterno das estrelas… A natureza, que a cercava, era a legítima Catedral de Deus.

Mas os templos erguidos pelos homens também lhe agradavam, pois preferia o toque dos sinos. Era-lhe como que uma saudação do Céu à Terra [p. 33].

Nunca casou, já que, sendo a mais velha dentre irmãos pequenos, não poderia tão cedo deixar de auxilar a família, caso saísse da casa dos pais (exigência do matrimônio).

Casa onde nasceu e residiu Joana d’Arc até os 17 anos, hoje museu (o engenhoso teto reclinado, típico das casas da época, não permitia que a neve de invernos mais rigorosos acumulasse e, com esse peso extra, ameaçasse-o de desabamento).

Bois Chesnu (literalmente, Bosque das Castanheiras), logradouro de Domrémy-la-Pucelle, com a basílica homônima erguida e consagrada à Joana d’Arc em 1926. Colina sagrada desde os tempos dos druidas, que sob os carvalhos realizavam suas cerimônias, e onde a pastora Joana ouviu as “vozes” diversas vezes.
Joana, ainda uma rosa em botão, recebeu a primeira visão mediúnica em seu desabrochar, por volta das treze primaveras, quando orava no jardim de casa. Num ardente meio-dia de verão, uma figura angelical disse-lhe: Joana, filha de Deus, sê boa e cordata, frequenta a igreja [pois o catolicismo era ainda a única religião na Europa], põe tua confiança no Senhor [p. 34, com adição].

Com o passar do tempo, a ingênua pastora identificou os Espíritos segundo sua crença religiosa, visto que as vozes nunca lhe disseram os nomes. Afirmava que se comunicava principalmente com Santa Catarina de Alexandria, Santa Margarida de Antioquia e o Arcanjo Miguel.

Joana adolescente ouvindo os santos, obra de 1908, do pintor simbolista Gaston Bussiere.


“Coincidências”: as duas santas, segundo a tradição, também foram mártires virgens; Margarida foi pastora e Catarina, igual a Joana, surpreendeu os “doutores” romanos com sua sabedoria. Pode ter ocorrido um simbolismo com o significado dos nomes ligados à natureza da Virgem Guerreira. Miguel, Micaël, a força de Deus; Margarida, Margarita, a pérola preciosa; Catarina, Katarina, a virgem pura: todos nomes simbólicos, que caracterizam uma beleza moral, uma força superior e refletem uma cintilação de Deus [p. 67].

Gravura de Joan Howard Pyle (século XIX).

Denis esclarece que os Espíritos superiores, quando se manifestam aos encarnados, na maioria dos casos, não se nomeiam, ou, se o fazem, tomam de empréstimo nomes simbólicos, que lhes caracterizam a natureza, ou o gênero da missão em que foram investidos [p. 65].

Mais tarde, as vozes pediram que ela socorresse o rei da França, Carlos VII, e o reino em ruínas. Joana respondeu-lhes que não sabia montar nem guerrear. O Espírito, então, jurou à assustada donzela: Filha de Deus, vai, serei teu amparo [p. 35].

Pintura de 1879, de Jules Bastien-Lepage, representando a pastora Joana, em êxtase, ouvindo suas vozes.

Não apenas ouvia as vozes dos “irmãos do paraíso” (assim denominara-os), pois sua mediunidade intensa permitia que também sentisse os odores e tocasse os Espíritos. Perguntada pelos inquisidores se abraçava ou beijava as santas Catarina e Margarida, respondeu: “Abracei-as ambas.” – “Rescendiam perfumes!” – “É bom se saiba que rescendiam perfumes” [p. 47].

Aparição de Santa Catarina e São Miguel à Joana d’Arc (1843), de Hermann Anton Stilke (parte esquerda do tríptico sobre a vida da santa).
Somente uma fé inabalável retiraria uma donzela ingênua da proteção paterna para o ambiente bruto e perigoso dos acampamentos dos exércitos; numa época em que os soldados indisciplinados eram verdadeiros bandidos. Não foi fácil o corte umbilical com a vida mundana:

Seu pai tivera em sonho a revelação dos desígnios que ela acariciava. Sonhou, uma noite, que a filha deixava a terra natal, a família, e partia, acompanhada de homens de guerra. Vivamente preocupado, falou disso aos filhos, ordenando-lhes que, de preferência a consentirem que se ausentasse assim, “a afogassem no Mosa”. E acrescentava: “Se o não fizerdes, fá-lo-ei eu próprio!”

Joana fora obrigada a dissimular, resolvida, como estava, “a obedecer antes a Deus do que aos homens”.

Em Ruão, os juízes lhe fazem carga dessa circunstância: “Acreditavas proceder bem, perguntam-lhe, partindo sem permissão de teu pai e de tua mãe?” – “Sempre obedeci a meu pai e a minha mãe em tudo, exceto no que respeitava à minha partida. Mas, depois lhes escrevi [em carta ditada] e eles me perdoaram.”

[p. 80, com adição].

Joana pastora atendendo as vozes amigas para defender a pátria, obra de 1889, de Jules-Eugène Lenepveu. Primeira pintura da série sobre a vida da santa que está no Panteão de Paris, onde estão sepultados diversos heróis da pátria francesa.
Tinha somente dezesseis anos quando partiu, nas primeiras luzes duma bela manhã de inverno, quando saiu de mansinho, para não acordar os pais, porém, não se foi sem antes beijar o leito dos genitores. Despediu-se dos amigos mais próximos, menos da querida Hauviette, cujas lágrimas a abalariam demais.

Deixou para trás doces sonhos, comuns a toda mulher de sua idade: arranjar um bom marido, trabalhador e honesto, e embalar junto ao seio rosados filhinhos (o tesouro do casamento e da maternidade). Contudo, mesmo à hora do suplício, nunca maldisse o duro destino que Deus lhe reservou: Foi para isto que nasci!” [p. 34].

Pintura simbolista de Henryk Siemiradzki (c.1880): a pastora Joana recebendo seu estandarte de batalha das mãos de uma santa.
Com uma parca bagagem e um bordão de viagem, seguiu a pé em sentido à casa dum tio, em Burei, que a acompanharia, para nunca mais retornar à sua saudosa Domremy.

A aparição de Nossa Senhora à uma pastora adolescente em Lourdes (França), no século XIX (o mesmo ocorreu em Fátima, Portugal, no início do século XX), é um exemplo de casos semelhantes aos fenômenos mediúnicos de Joana d’Arc.
Denis publicou uma mensagem mediúnica, recebida em Paris, no ano de 1898, do Espírito que um dia foi na Terra Joana d’Arc, esclarecendo como foi revelada à Virgem Guerreira sua missão divina, vejamos o principal trecho dela:

“Um dia […] adormeci e tive a seguinte visão: Assisti, primeiramente, a muitos combates, oh! impossível de serem evitados por efeito do livre arbítrio de cada um; mas, sobretudo, por motivo do amor ao ouro e à dominação, os dois flagelos da Humanidade. Depois, descortinei claramente a grandeza futura da França e seu papel de civilizadora no porvir. Deliberei consagrar-me muito particularmente a essa obra.

“Logo me vi rodeada de uma multidão simpática, que na maior parte chorava e deplorava a minha perda. Em seguida, o veneno, o cadafalso, a fogueira passam vagarosamente por diante de mim. Senti as labaredas devorando-me as carnes e desmaiei!.. Vozes amigas chamaram-me à vida e me disseram: “Espera! A falange celeste que tem por missão velar sobre esse globo te escolheu para secundá-la em seus trabalhos e assim acelerar o teu progresso espiritual. Mortifica tua carne, a fim de que suas leis não possam ser obstáculo a teu Espírito. A provação será curta, porém rude. Ora e a força te será dada: colherás de tua obra todas as bênçãos nos tempos vindouros. Assegurarás a vitória da fé arrazoada contra o erro e a superstição. Prepara-te para fazer em tudo à vontade do Senhor, a fim de que, chegada à ocasião, tenhas adquirido bastante energia moral para resistir aos homens e obedecer a Deus! Seguindo estes conselhos, os mensageiros do céu virão a ti, ouvirás suas vozes, eles te guiarão e aconselharão; podes ficar tranqüila, não te hão-de abandonar!”

[p. 205].

E assim ocorreu.
GRANDE GENERAL e MÉDIUM EM FORMA DE MULHER


“Amava muito mais […] ao meu estandarte, do que à minha espada. Nunca matei ninguém!”

[p. 173]


Somente a Intervenção Divina faria de uma menina-moça, sem experiência alguma em campanha militar, um comandante de gênio da noite para o dia; capaz de conquistar o respeito dos companheiros e até de muitos inimigos. Sua genialidade militar, ao longo da História, foi comparada às habilidades de inesquecíveis generais, como Alexandre, Aníbal, César e Napoleão.

Pintura do pré-rafaelista Sir John Everett Millais (1865): retrato de Joana d’Arc orando em armas.

Analfabeta, logicamente não frequentou academia alguma. A assombrosa estratégia, logística e sabedoria vinha do Alto. Assim justificou-se aos letrados da Terra: Há nos livros de Nosso Senhor muito mais que nos vossos [p. 46]. Denis complementa: Joana era ignorante: por únicos livros tivera a Natureza e o firmamento estrelado [p. 45].

Deus fez dela uma “pastora de homens em combate”, pois sempre trabalhou com alegria e afinco, desde criança, fiando a lã, guardando as ovelhas e auxiliando o pai com o arado:

o trabalho é o melhor amigo do homem, seu amparo, seu conselheiro na vida, seu consolador na provação […] não há verdadeira felicidade sem ele. “Viva o trabalho!” é a divisa que sua família adotará e mandará inscrever-lhe no brasão, quando o rei a houver feito nobre [cavaleiro].

[p. 33, com adição]

Iniciou sua vida pública acompanhada por um tio, Durand Laxart, um dos poucos parentes que lhe deram crédito e incentivaram. O bom homem a conduziu ao comandante da localidade de Vaucouleurs, que, após muita insistência da moça e das pessoas que a apoiavam, a enviou, escoltada por alguns cavaleiros através de território inimigo, até Chinon, onde estava o ainda não coroado Carlos VII.

Os sinais divinos de Joana eram importantes incentivos ao povo francês daquela época, a exemplo da descoberta da espada de Carlos Martel: herói da História da França que barrou o avanço sarraceno, ou islâmico, em 732, golpeando feito um martelo (martel, em francês) a cabeça do inimigo. Suas vozes lhe comunicam que a espada de Carlos Martel está enterrada na Igreja de Santa Catarina de Fierbois e mostram-na [p. 51]. Aquela ermida era tradicionalmente visitada por cavaleiros e demais militares, que na esperança de curarem seus ferimentos depositavam no local seus gládios. A espada ficou escondida por séculos detrás do altar.

Joana d’Arc beijando a Espada da Libertação (1863), de Dante Gabriel Rossetti.
Reza a lenda que ao receber a velha espada de Carlos Martel, bastante enferrujada, bastou limpá-la com um pano comum para que, na mesma hora, o metal voltasse a ganhar a natureza reluzente de antes.
Em Chinon, consegue com muito custo uma audiência com o monarca, que vivia em meio ao prazer desregrado, rodeado por bajuladores e amantes. Antes de lhe ser dado o comando de um destacamento, a ex-pastora recebeu rigorosos testes, de vários tipos, na corte de Carlos VII: o rei, para experimentá-la, pusera no trono um cortesão e se ocultara na multidão de fidalgos. A donzela [que nunca o havia visto antes], porém, vai direto à sua presença […] [p. 86, com adição].

Joan d’Arc diante de Carlos VII, em Chinon, respondendo as questões dos clérigos em fevereiro de 1429 (1837), de Dominique-Louis Papety.
Ao deixar a corte, Joana dirigiu-se à Poitiers, onde foi arguida por juízes do rei francês, e depois à Tours, para a confecção de sua armadura e estandarte. Após receber o uniforme militar masculino, raramente voltaria a cobrir-se com vestes femininas.

Com a notícia do cerco inglês aos Orleans, Joana partiu para Túrones, próximo à Orleans, onde encontrou seu fiel conselheiro religioso, frei Pasquerel, que a acompanhou até ser capturada.

Ordenou que lhe trouxessem a espada de Carlos Martel, pois acreditava que novamente ela expulsaria estrangeiros invasores. Reuniu-se em Blois com o exército, por doze dias, e partiu com as forças nacionais para a batalha de Tourelles, na qual alcançou a vitória levantando o sítio à Orleans (ou Orleães). Pelo feito, Joana ganhou do povo a perpétua e carinhosa alcunha de “Virgem de Orleans”.

Pintura de Henry Scheffer (1843) retratando Joana d’Arc na ocasião da libertação de Orleans.

A mediunidade deu-lhe o poder da antevidência ou predição mediúnica várias vezes, fato que animava cada vez mais pessoas em prol da defesa da pátria. Para muitos franceses, eram indícios de que “Deus estava do lado da França”, e funcionavam como um estímulo psicológico (ver explicações lógicas sobre o fenômeno no cap. XVI de A Gênese, de Allan Kardec). Tal característica de Joana está ligada a sua natureza de druidesa em vida pretérita: a classe dos druidas ovados, que, dentre outras funções, possuíam o dom da profecia.

Um exemplo, na ocasião do ataque à Bastilha da Ponte, sobre o rio Líger, diante de Orleans, chegou a alertar um militar inglês chamado Glasdale: Ela o intimida a se render ao rei dos céus, acrescentando: “Tenho grande compaixão de tua alma!” No mesmo instante, Glasdale cai, armado, no Líger, onde se afoga [p. 50].

As vozes garantiram-lhe a libertação de Orleans e também a abertura do caminho, barrado pelo inimigo, até Reims, onde o rei foi coroado na catedral como exigia a tradição.

Pintura de Jules-Eugène Lenepveu sobre a coroação de Carlos VII em Reims (da série sobre a vida da santa no Panteão de Paris).

A resistência de Joana parecia sobre-humana, nenhum homem em armas de sua época demonstrou tanto zelo ao dever e falta de cansaço como aquela moça. “Sucedeu-lhe passar até seis dias em armas” [p. 55], testemunhou um conselheiro-camarista do rei. Muitas vezes, durante um dia inteiro, não comeu mais do que um pedaço de pão [p. 56], afirmou um pagem. E seu grande biógrafo espírita confirma tamanha força:

A rapidez maravilhosa com que a nossa heroína se curava dos próprios ferimentos mostra a sua poderosa vitalidade: alguns instantes, alguns dias de repouso lhe bastam e volta para o campo de batalha. Ferida gravemente, por haver saltado da torre de Beaurevoir, recobra a saúde assim [que] consegue tomar algum alimento.

[Ibidem, com adição].

Joana com certeza era uma pessoa de pensamento muito forte e positivo e isso pode fazer toda a diferença na vida de qualquer um, leia o artigo: http://www.brasilpost.com.br/2014/04/14/pessoa-mentalmente-forte_n_5146161.html

O tempo de sua missão, a serviço da nação francesa, era curto; necessária era a ajuda constante dos Espíritos não apenas aconselhando e guiando-a, mas também tratando a guerreira com fluidos magnéticos reparadores ao corpo carnal.

Por isso sobreviveu a diversos incidentes violentos que, certamente, levariam à morte ou invalidez definitiva qualquer outro soldado, sobretudo naquela época, quando a medicina, se comparada com a avançada ciência atual, ainda estava na infância.

Outro exemplo desse incrível fenômeno ocorreu quando Joana tentou escapar do cárcere, que situava-se no alto da torre do Castelo de Ruão. Como a corda feita de trapos era curta demais para ir até o chão, ela caiu de uma altura considerável. Ao ser encontrada estendida no solo, quase morta, foi levada novamente à prisão e recuperou-se dias depois.

Torre do Castelo de Ruão, onde Joana d’Arc ficou presa.


Sobre esse processo de cura “milagroso”, o estudo científico espírita esclarece:

o fluido cósmico universal é o elemento primitivo do corpo carnal e do perispírito [nosso corpo semi-material, entre o corpo físico e o espírito] os quais são simples transformações dele. Pela identidade da sua natureza, esse fluido, condensado no perispírito, pode fornecer princípios reparadores ao corpo; o Espírito, encarnado ou desencarnado, é o agente propulsor que infiltra num corpo deteriorado uma parte da substância do seu envoltório fluídico. A cura se opera pela substituição da molécula malsã por uma molécula sã.

[KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1996, 37ª ed., cap. XIV, pp. 294-5].

Kardec adiciona que nem sempre as curas ocorrem da mesma forma, pois dependem de vários fatores, como a qualidade da fonte de emanação do fluido curativo e da capacidade do enfermo em recebê-la.

O magnetismo terapêutico é capaz também de estimular a autocura, através da , que pode, segundo estudos recentes, ativar e intensificar o sistema imunológico de forma psicossomática. Aliado a isso, a prece religiosa sincera, funciona como uma evocação aos Espíritos curadores. Joana foi um belo exemplo de pessoa que buscou constantemente em suas orações o remédio espiritual para todos os males.

O poder da fé tem aplicação direta e especial na ação magnética. Graças a ela, o homem age sobre o fluído, agente universal, modifica-lhe a qualidade e lhe dá impulso por assim dizer irresistível. Eis porque aquele que alia, a um grande poder fluídico normal, uma fé ardente, pode operar, unicamente pela sua vontade dirigida para o bem, esses estranhos fenômenos de cura e de outra natureza, que antigamente eram considerados prodígios, e que entretanto não passam de conseqüências de uma lei natural. Essa a razão porque Jesus disse aos seus apóstolos: Se não conseguistes curar, foi por causa de vossa pouca fé.

[KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. José Herculano Pires. Rio de Janeiro: FEB, Cap. XIX, item 05]

Pintura de George William Joy (1895) sobre Joana sendo amparada por um anjo.
A ação magnética-fluídica medicinal recebida por Joana d’Arc, provavelmente, veio diretamente do plano extrafísico, ou seja, dos Espíritos atuando diretamente e sem intermediário [médium de cura] sobre um encarnado, seja para o curar ou acalmar um sofrimento […] [A gênese, p. 295, com adição].

A água de beber também pode ser fluidificada, além, é claro, das propriedades salutares que certas fontes podem naturalmente conter. Os antigos druidas e camponeses contemporâneos de Joana tinham algum conhecimento sobre isso.

À meia encosta [da colina Bois Chesnu, próxima à casa dos pais de Joana], de sob grande faia isolada, borbotava uma fonte, objeto de culto tradicional. Em suas águas claras, desde tempos imemoráveis, buscavam a cura os enfermos que a febre atormentava…

[DENIS, p. 202, com adição]

Curas feitas dessa forma sempre existiram na história da humanidade, e o maior de todos os médiuns de magnetismo fluídico de cura, devido ao altíssimo nível evolutivo do Espírito, foi Jesus Cristo.

Pesquisas feitas recentemente na Rússia sobre a ação da mente (Espírito) sobre o DNA reforçam ainda mais a autocura, confira:
http://www.ligiadeslandes.com.br/17/06/2014/cientistas-provam-que-dna-pode-ser-reprogramado-por-palavras-e-frequencias/
Mais um artigo sobre a autocura no contexto mental e genético, no caso contra o câncer:

http://super.abril.com.br/saude/cancer-chave-vida-morte-748314.shtml?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_super


Retrato de Joana d’Arc, com seu estandarte, orando pintado por Hermann Anton Stilke (século XIX).

Em Orleans, pela primeira vez, frente aos aparentemente impenetráveis círculos de fortificações dos ingleses, Joana justificou porque, com apenas dezoito anos, e mesmo na condição de mulher, estava no comando de grande parte do exército francês.

a heroína se arroja a toda brida [cavalga em alta velocidade], com a bandeira desfraldada. Eletriza os soldados e, num ímpeto fascinador, arrasta-os ao assalto.

[…] tomou lugar à frente dos guerreiros e, sob uma chuva de projéteis arremessados pelas bestas e colubrinas, permaneceu de pé à borda do fosso, empunhando o estandarte, para manter unidos os combatentes”.

Com esse vigoroso ataque, conseguiu romper as linhas inglesas. Uma a uma as fortificações foram tomadas e em três dias Orleães estava livre do cerco. Depois os combates se sucedem, como relâmpagos num céu de fogo. Cada assalto é uma vitória. É Jargeau, é Meung, é Beaugency! Finalmente, em Patay, os ingleses são banidos em campo raso […]. Em seguida, as tropas libertadoras marcham sobre Remos [Reims] e Carlos VII é sagrado rei da França.

Em dois meses Joana reparara todos os desastres; reconstituíra, moralizara, disciplinara, transfigurara o exército e reerguera todas as coragens.

[DENIS, pp. 96-7, com adições].

Detalhe de Joana d’Arc e seus compatriotas em arremetida contra os inimigos: obra de 1907 de Craig Franck.

Sua habilidade durante o sítio à Troyes é uma prova disso:

Joana encorajava os trabalhadores, estimulava-lhes o zelo, fiscalizava tudo e mostrava […] diligência tão maravilhosa, que dois ou três consumados capitães não teriam podido fazer mais.

E isto se passava durante a noite, cujas trevas davam aspecto fantástico àqueles preparativos extraordinários: movimentos de homens, de cavalos e de carretas, à luz baça de archotes, em meio de uma zoada ensurdecedora de gritos, chamadas, relinchos, golpes de machado e de martelo, estalos e desabamentos, ranger de eixos, solavancos, etc.

[p. 269]

Pintura de Jules-Eugène Lenepveu sobre a retomada de Orleans (da série sobre a vida da santa no Panteão de Paris).

Os Espíritos, que orientavam Joana dia e noite, tornaram-na uma incansável, genial e insuperável comandante:

Ao raiar a alvorada, o quadro se patenteou nitidamente aos olhos dos desorientados habitantes de Troyes. Desaparecera gradativamente o fantástico, dando lugar à realidade não menos ameaçadora, a saber: tudo completamente organizado para uma arremetida, que não podia deixar de ser furiosa, obstinada, implacável!

[p. 270]

Joana d’Arc em Batalha (1843), de Hermann Anton Stilke (cena central do tríptico sobre a vida da santa).
Esse guerreiro perfeito foi uma mulher. Portava o coração como escudo, a fé era sua espada; bastou apenas isso para obter a vitória:

cinco dias lhe bastam para desassediar Orleães, oito para livrar do inimigo todo vale do Líger, quinze para conquistar a Champanha: ao todo, dois meses apenas para erguer a França do seu abatimento. Em vão se procuraria na História um feito semelhante. Os mais ilustres guerreiros podem inclinar-se diante da Pucela de dezoito anos, cuja fronte o prestígio de tais vitórias auréola.

[pp. 273-4].

Não devemos esquecer que Joana era de carne e osso. Quando sentia medo e dúvidas, como todo ser humano – sobretudo estando na flor da mocidade – suas vozes – que às vezes calavam-se, a fim de pô-la em prova – sussurravam-lhe na mente, para levantar a moral e inflamar-lhe a bravura em combate: “Vai, vai, nós te ajudaremos!” [p. 35].

Pintura de Jean-Jacques Scherrer (1887) retratando a entrada triunfal de Joana d’Arc em Orleans.

Além de tudo, havia algo significativo que diferenciava Joana de demais soldados dos embrutecidos tempos medievais. A Virgem de Orleans, em meio a carnificina da guerra, cultivava os bons sentimentos humanos, a exemplo da piedade e respeito ao inimigo vencido.

Não há dúvida de que ela se armou para salvar a França, mas, passada a hora da luta, volve a ser mulher de terno coração, o anjo da meiguice e da caridade. Por toda parte, opõe-se aos massacres e sempre oferece a paz antes de atacar. Três vezes, diante de Orleães, reitera propostas deste gênero. Socorre os feridos e mesmo os feridos ingleses.

[p. 172].

Em meio a traição assassina e rapinagem, nos campos de guerra e nas cortes, Joana é o modelo de como os homens deveriam portar-se. Pode ser considerada uma precursora dos militares atuais enviados às missões de paz e auxílio humanitário; surpreendentemente, nunca tirou, ou ordenou que tirassem, a vida de outro ser humano:

Era bondosa e pacífica de natureza. Nunca trava combate com os ingleses, sem que previamente os convide a se afastarem. Quando os adversários se retiram sem lutar, como a 8 de maio, junto de Orleães, ou quando cedem ao embate dos franceses, ordena que os poupem: “Deixai-os ir, dizia, não os mateis. A mim me basta que se retirem.”

[p. 173].
O “BEIJO” DA TRAIÇÃO


Nada receio, senão a traição.

JEHANNE

[idem, p. 115]

Pintura de Donato Giancola (c.2000) sobre a captura de Joana.


A Guerra dos Cem Anos quase varreu da Europa o território francês cobiçado pelos reis e nobres ingleses. Após décadas, o lado da França começou a retomar suas terras, e levantar o ânimo da pátria, graças às vitórias lideradas pela jovem Joana d’Arc: por alguns chamada de “amazona” ou “virago” enviada e inspirada, constantemente, por anjos e santos (Espíritos de moral elevada).

Depois de retomar, dentre outros locais, cidades importantes como Orleans, Champanhe e Reims, a boa estrela de Joana pareceu abandoná-la nos primeiros e frios meses de 1430, quando não mais obteve vitórias (apesar do incentivo das “vozes”). Os verdadeiros inimigos não eram os ingleses e seus aliados. A elite francesa (incluindo o rei) aos poucos preludiaram a traição através da displicência, inveja e intrigas contra Joana. Por exemplo, o sítio a Paris (o “coração” da França), sob o domínio inglês, dentre outros reveses internos, teve que ser abandonado diante da recusa ao pedido de envio de reforços e mantimentos feito pela Pucela.

Por fim, Joana d’Arc foi capturada em Compienha (Compiègne) pelos homens de João II de Luxemburgo, Conde de Ligny, do partido da Borgonha, aliado dos ingleses.

Iluminura da época retratando o conde João II de Luxemburgo (1392-1441).

Embora, porém, nenhuma conspiração tenham tramado previamente contra Joana, nem por isso deixou de haver traição, uma vez que G. de Flavy [governante de Compienha] não tentou sequer salvá-la. Encurralada pelos borgonheses no ângulo da estrada de Margny com o baluarte que defendia a ponte, a alguns metros da entrada, a heroína podia ser facilmente socorrida. No momento crítico, o comandante de Compienha ocupava o baluarte com muitas centenas de homens. Observando tudo o que se passava, nenhuma tentativa de socorro fez e abandonou a donzela à sua sorte. Nisto é que a traição parece flagrante.

[…] foi vendida aos ingleses, seus inimigos cruéis, por dez mil libras tornesas [soma bem maior que as trinta moedas de prata dadas a Judas], além de uma renda consignada ao soldado que a prendera.

João de Luxemburgo descendia de alta linhagem; era, porém, mesquinho de coração e falto de fortuna. […] não pôde, consequentemente, recusar as dez mil libras em ouro que o rei da Inglaterra oferecia. Por esse preço, vendeu Joana e a entregou.

Dez mil libras em ouro! Era uma soma enorme para a época. Os ingleses, entretanto, estavam baldos de recursos; […] Desde, porém, que se tratava de comprar Joana, os ingleses acharam meio de obter tão grossa quantia. Que fizeram para isso? Uma coisa que lhes era familiar: lançaram pesado imposto sobre toda a Normandia [região noroeste da França]. E eis um fato que merece assinalado: com dinheiro francês é que o sangue de Joana d’Arc foi pago!

[p. 119-20, com adições]

Captura de Joana d’Arc (1847-52), de Adolphe Alexandre Dillens.

No dia 23 de maio de 1430, podaram um lírio branco recém-desabrochado, pois Joana tinha apenas dezoito anos e cinco meses. Sua campanha militar durou pouco mais de um ano. Não acabou com a guerra, mas, graças a médium, o rei francês havia reconquistado vasto território e, graças ao sentimento patriótico inflamado por Joana, os franceses expulsaram os ingleses treze anos após.

PRISÃO E JULGAMENTO VIS


Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que, pelo simples fato de produzirem fenômenos insólitos e incompreendidos, foram qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo; foi o mesmo que se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do vulgar. A ignorância exagerou seu poder e, muitas vezes, eles mesmos abusaram da credulidade pública, explorando-a; daí a justa reprovação que os feriu.

Basta-nos comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos verdadeiros médiuns, para conhecermos a diferença, mas a maioria dos críticos não se quer dar a esse trabalho.

[…]

[…] os Espíritos não estão sujeitos aos caprichos de ninguém, […] ninguém pode, à vontade, constrangê-los a responder ao seu chamado; do que se conclui que os médiuns [sérios e esclarecidos] não são feiticeiros.

[KARDEC, Allan. O que é o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2004, 50ª ed., p. 104, com adição]

Gravura do século XIX mostrando como era o Castelo de Ruão na época de Joana.


Os esclarecimentos acima, infelizmente, eram desconhecidos aos juízes de Joana. Além disso, sua condenação foi previamente acertada, pois, para os ingleses e partidários, o crime da virgem estava mais no campo da política do que no da religião: necessário era destruir o principal incentivo moral da resistência nacional francesa. Denis ressalta o desumano sofrimento de Joana na prisão:

paixão mais dolorosa mesmo do que a do Cristo, pois que o Cristo era homem, ao passo que aqui se trata de uma moça de dezenove anos, posta à mercê de soldados brutos, estúpidos e lúbricos […].

Muitas vezes procuravam violentá-la e, como não o conseguissem, batiam-lhe brutalmente. Ela se queixava disso aos juízes no curso do processo e, frequentemente, quando estes lhe entravam na prisão para interrogá-la, a encontravam banhada em lágrimas, com o rosto inchado e pisado pelas pancadas recebidas […].

[DENIS, p. 124]

Joana d’Arc não escapou de outros suplícios destinados a qualquer um que se encontrasse em tais ignominiosas condições:

esforçavam-se por oprimir a donzela, física e moralmente. Submetiam-na a interrogatório sobre interrogatório. Efetuavam, às vezes, dois por dia, de três horas cada um. E durante todo o tempo obrigavam-na a ficar de pé, suportando o peso de grossas correntes.

Contudo, Joana não se deixa intimidar. Aquele sinistro lugar se lhe afigura um novo campo de batalha, com o que dá mostra de sua grande alma, de sua coragem máscula. A potência invisível que a inspira [mediunidade audiente] prorrompe em frases veementes, que aterrorizam seus acusadores.

[idem, pp. 138-9, com adição]

Joana d’Arc interrogada na prisão pelo Cardeal de Winchester (1824), de Paul Delaroche.

Sofreu, inclusive, as tenebrosa práticas do Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição:

conduzem-na à sala de torturas [para que “confessasse” ser uma bruxa]. Lá se acham os torturadores com os apetrechos sinistros. Preparam os instrumentos; incandescem os ferros. Joana resiste. Defende a França e o ingrato rei que a abandonou […].

Deixaram de torturá-la, não por piedade, mas porque, no estado de fraqueza física a que chegara, ela evidentemente expiaria durante os tormentos e o que se queria era uma morte pública, um cerimonial espetaculoso, de molde a impressionar a massa popular.

Os juízes nada esqueciam do que pudesse fazê-la sofrer. Num requinte de crueldade, compraziam-se em lhe descrever os horrores do suplício do fogo. Ora, este era o martírio que Joana mais particularmente temia: “Preferia que me decapitassem”, dizia, “a ser assim queimada.”

[pp. 141-2, com adição]

Abandonada pelos franceses da nobreza, o povo simples e as vozes dos Espíritos amigos, porém, nunca a abandonaram. Estas diziam-lhe para ter paciência, pois logo seria libertada vitoriosamente. Referiam-se à libertação do Espírito, através do martírio sobre a “prisão carnal”, contudo, na sua ingenuidade de camponesa, Joana pensava que seria solta da prisão feita de ferro e pedras.


Não é privilégio das almas superiores ter por destino sofrer pelas causas nobres? Não é imprescindível que passem pelo cadinho das provações, para mostrarem todas as virtudes, todos os tesouros, todos os esplendores que encerram? Uma grande morte é o coroamento necessário de uma grande vida, de uma vida de devotamento, de sacrifícios; é a inclinação numa existência mais elevada. Porém, nas horas dolorosas, durante a suprema purificação, sobre-humana força sustenta essas almas, força que lhes permite tudo afrontar, tudo vencer!

[p. 127].

O SUPLÍCIO NA FOGUEIRA: A LIBERTAÇÃO

 

A Pucela revelou a Carlos VII, antes de levá-lo à Reims, que já estava ciente do próprio desencarne: “Não durarei mais que um ano, Sire [senhor]; é preciso, pois, que me aproveitem bem!” [p. 52, com adição]. Realmente, seu serviço militar à pátria não durou mais que treze meses. No entanto, as vozes não revelaram o momento ou o meio exatos do desencarne da jovem. Se eu soubera a hora, não me teria ido entregar voluntariamente. Entretanto, teria feito segundo me ordenassem minhas vozes, quaisquer que fossem para mim as consequências [idem].

Pintura do século XIX representando a ida de Joana (na carroça) ao suplício na fogueira.
Os Espíritos informaram à Joana sobre a sua prisão, ocorrida “antes do dia de São João” (24 de junho; Joana foi presa em 23 de maio de 1430), segundo ela mesma afirmou aos juízes de Ruão. Joana, então, implorou aos seus guias invisíveis que morresse na hora da captura, para não sofrer os tormentos do cárcere, porém, como tal dura expiação era necessária ao resgate reencarnatório da donzela, as vozes disseram-lhe: “Recebe tudo com resignação. É preciso que assim se faça […][idem].

Outro herói das Gálias (França), muitos séculos antes, passou por situação parecida. Em 52 a.C., Vercingétorix, líder gaulês da tribo dos arvernianos, combateu e foi vencido pelos romanos invasores liderados por Júlio César. Não conseguiu a vitória porque algumas tribos demoraram a se juntar ao exército defensor (semelhante desunião entre compatriotas foi observada na campanha de Joana).

Vercingétorix havia antes procurado o arquidruida Allan Kardec (uma encarnação passada do prof. Rivail, codificador do Espiritismo no século XIX), que vivia na sagrada ilha de Sein (próxima à costa da Bretanha, no Noroeste da França). O druida previu a derrota do chefe arverniano em Alésia. Vercingétorix, então, confessou que preferiria tirar a vida, do que sofrer a humilhação dos vencidos em Roma. Kardec, porém, revelou-lhe as pesadas faltas em vidas passadas, as quais o guerreiro gaulês deveria resgatar na rendição aos romanos.

Vercingétorix depondo suas armas aos pés de Júlio César (1899), de Lionel Royer.
Algum tempo depois, Vercingétorix, diante da referida derrota, acatou o conselho de Kardec e se entregou corajosamente. Foi mantido prisioneiro por César, como troféu de guerra, durante seis anos. Sofreu humilhante exposição pública e foi mantido em cárcere insalubre até ser executado em 46 a.C (provavelmente estrangulado na prisão), por volta dos 36 anos: jovem como Joana d’Arc. César, no entanto, não desfrutou por muito tempo a glória, pois foi assassinado dois anos depois no senado pelos próprios romanos.

Morte de Joana d’Arc na Fogueira (1843), de Hermann Anton Stilke (parte direita do tríptico sobre a vida da santa).

Uma característica ligada às reminiscências druídicas de Joana é o sacrifício. Sobre esse costume, assim descreveu Léon Denis na obra Depois da Morte:

[…] nos tempos de calamidade, vítimas voluntárias também se entregavam em expiação. Impacientes de reunirem-se com seus antepassados nos mundos felizes, de se elevarem para os círculos superiores, os gauleses subiam prazenteiramente para a pedra do sacrifício e recebiam a morte no meio de um cântico de alegria. Mas no tempo de César já haviam caído em desuso essas imolações”.

[MONTEIRO, p. 38, com sublinhado]

Lembramos que Joana não ofereceu sua vida passivamente às chamas da fogueira; estava disposta a perdê-la (com muito custo) apenas nos campos de batalha. Porém, os sacrifícios humanos entre os celtas eram, geralmente, penas capitais aos criminosos, promovidas pelos druidas, os quais também exerciam a função de juízes penais. Cogitamos se o trágico fim de Joana está ligado a algum desses holocaustos, durante sua existência pretérita talvez como “juiz druida”.

Enfim, o dia derradeiro chegou: 30 de maio de 1431. Nunca uma manhã de primavera da Normandia (região ao norte) havia despertado tão triste na cidade de Ruão (Rouen). Joana, aos dezenove anos, mostrou-se uma mulher de Espírito elevado, mesmo frente a um fim terrível na praça principal:

Nesse solene momento, em presença da morte que se avizinha, sua alma se desprende das sombras terrenas e antevê os esplendores eternos. Ora em voz alta. Profere uma prece extensa e fervorosa. Perdoa a todos, a seus inimigos, a seus algozes. Num sublime arroubo do pensamento e do coração, reúne dois povos, enlaça dois reinos [França e Inglaterra]. As inflexões de sua voz emocionam vivamente a multidão; de dez mil peitos ofegantes rebentam os soluços. Os próprios juízes, tigres de feições humanas, […] todos choram. Pouco lhes dura, porém, a emoção. O cardeal faz um aceno e Joana é amarrada por fios de ferro ao poste fatal; passam-lhe à volta do pescoço pesada golilha.

[…] Quando lhe apresentam a cruz, cobre-a de beijos e de pranto. No momento em que vai morrer de uma morte horrível, abandonada por todos, quer ter diante de si a imagem desse outro supliciado que, lá nos confins do Oriente, no cume de um monte, deu a vida em holocausto à verdade.

Naqueles minutos graves a heroína revê toda a sua vida, curta, mas brilhante. Evoca a lembrança dos entes que ama, recorda os dias serenos da sua infância em Domremy, o semblante meigo de sua mãe, a fisionomia austera do velho pai e as companheiras de sua meninice […].

[…]

Os carrascos põe fogo à lenha e turbilhões de fumaça se enovelam no ar. A chama cresce, corre, serpenteia por entre as pilhas de madeira. o bispo de Beauvais acerca-se da fogueira e grita-lhe: “Abjura!” Ao que Joana, já envolta num círculo de fogo, responde: “Bispo, morro por vossa causa, apelo do vosso julgamento para Deus!”

As labaredas rubras, ardentes, sobem, sobem mais e lambem-lhe o corpo virginal; suas roupas fumegam. Ei-la que se torce nas ataduras de ferro. Alguns minutos depois, em voz estridente, lança à multidão silenciosa, aterrorizada, estas retumbantes palavras: “Sim, minhas vozes vinham do Alto. Minhas vozes não me enganaram. Minhas revelações eram de Deus. Tudo que fiz fi-lo por ordem de Deus!” […]. Suas vestes incendiadas se tornam uma das centelhas da imensa pira. Ecoa um grito sufocado, supremo apelo da mártir de Ruão ao mártir do Gólgota: “Jesus!”

E nada mais se ouviu, além dos estalidos que o crepitar do fogo produz…

[pp. 153-4, com adição].

Gravura do século XIX sobre o suplício de Joana.
Após confirmarem a morte da suposta bruxa, os ingleses apagaram logo as chamas e deixaram o corpo carbonizado de Joana exposto, no mesmo local, por cerca de uma semana, pois todos deveriam se certificar que a “feiticeira” estava morta. Depois, reacenderam as chamas até que os despojos fossem consumidos completamente.

As cinzas de Joana receberam uma bela “sepultura líquida”, foram lançadas no rio Sena, cujo fluxo termina no Canal da Mancha, ao Oeste, c.70 Km de Ruão, na sua foz em Le Havre. Alguns gostam de imaginar, poeticamente, que ela realizou seu desejo de menina do interior: conhecer o mar.

Detalhe da pintura de Jules-Eugène Lenepveu sobre a morte de Joana na fogueira (da série sobre a vida da santa no Panteão de Paris).

Três anos antes, em 1428, os ingleses, atendendo a determinação papal (Concílio de Constança em 1415), exumaram e cremaram os restos mortais do teólogo e pregador John Wycliffe, precursor da Reforma Protestante, falecido 44 anos antes. As cinzas foram jogadas no rio Swift, em Lutterworth (c.80 Km ao Noroeste de Londres). O Swift, por ser um simples regato, não tem o mesmo “porte” do Sena, que recebeu as cinzas de Joana d’Arc, mas por desaguar no Avon, inspirou um poeta anônimo, admirador de Wycliffe, a versejar:

O Avon para o Severn corre
E corre o Severn para o mar;
E pela imensidade a que as água levam,
As cinzas de Wycliffe se hão de espalhar.

[MONTEIRO, p. 167]

As “cinzas” do poema simbolizam as ideias do reformador inglês que se espalharam nos espíritos de outros homens virtuosos ao longo do tempo. Tais ideias alcançaram a Boêmia, região da atual República Tcheca.
Wycliffe desencarnou em paz e não sofreu o martírio das labaredas da intolerância do cristianismo romano. A mesma sorte não obteve o reformador Jan Hus, pois, como Joana, foi queimado vivo em 1415. Seu conterrâneo e discípulo, Jerônimo de Praga (Jeroným Pražský), recebeu o mesmo terrível fim no ano seguinte. As cinzas de ambos foram lançadas no rio Reno.

Gravura de 1563 representando a punição póstuma de Wycliffe: cremação dos despojos exumados e despejo das cinzas em rio próximo.

Ilustração de c.1900, de Kamila Vladislava Mutticha, sobre o martírio de Jan Hus na fogueira da Inquisição em 1415. Alguns afirmam que teria vaticinado: hoje assais um ganso (“hus”, em tcheco-boêmio), mas daqui a cem anos virá um cisne que não podereis assar (cerca de um século depois, em 1517, Martinho Lutero iniciou a Reforma Protestante). Jerônimo de Praga, discípulo de Hus, seguiu-lhe na mesma palma do martírio: foi queimado em 30 de maio (mesmo dia de Joana) de 1416.
Na visão terrena, a história de Joana d’Arc se encerra taciturna e injustiça. Contudo, sob a narrativa espírita, a Virgem Guerreira da França teve o merecido final feliz, como nos põe a par as mensagens mediúnicas documentadas por Léon Denis:

Terá Joana sofrido muito? Ela própria nos assegura que não. “Poderosos fluidos, diz-nos, choviam sobre mim. Por outro lado, minha vontade era tão forte que dominava a dor.”
………………………………………………………………………………………………………..
Está morta a virgem da Lorena. O Espaço todo se ilumina. Ela se eleva e paira acima da Terra, deixando após si um rastro luminoso. Já não é um ser material, mas um puro Espírito, um ser ideal de pureza e de luz. Os Céus se lhe abriram até ao infinito. Legiões de Espíritos radiosos vêm-lhe ao encontro, ou lhe formam cortejo. E o hino do triunfo, o coro celestial da boa-vinda repercute nos espaços siderais: “Salve! salve! aquela que o martírio coroou! Salve! tu que, pelo sacrifício, conquistaste eterna glória!”

Joana entrou no seio de Deus [mundos superiores e imateriais], nesse foco inextinguível de energia, de inteligência e de amor, cujas vibrações animam o Universo inteiro. Muito tempo permaneceu mergulhada nele. Afinal, um dia, saiu de lá mais radiante e mais bela, preparada para missões de outra ordem […].

[pp. 154-5, com adição].

Detalhe do entalhe em madeira, cena central do tríptico, sobre a adoração de Joana d’Arc (1896) feito pelo artista da estética art nouveau: James William Fosdick. Joana segura a espada na mão direita e um fuso na esquerda, símbolos de sua natureza dupla: soldado e camponesa-pastora de ovelhas.

Sempre há um lado positivo em toda tragédia.

A memória de Joana d’Arc foi dolorosa à Igreja Latina, que indiretamente condenou-a. Apesar de ter frequentado templos católicos, desde criança, jamais submeteu-se à Igreja de Roma. “Reporto-me a Deus, somente”, dizia sempre nos interrogatórios. Não aceitava intermediários terrestres em sua fé; seguia somente a “Igreja do Alto”, como referia-se. Em relação à parte espiritual, obedecia apenas a vontade divina trazida por seus “irmãos do Paraíso” (assim apelidou os Espíritos amigos).

Neste contexto, Joana d’Arc foi um dos antecessores dos reformistas do cristianismo medieval. Movimento que culminou com a total separação do catolicismo encabeçada por Lutero, ex-clérigo católico, no século seguinte ao desencarne da médium.

Não fosse a grande luz projetada por brilhantes Espíritos, como Wicleff, João Huss, Jerônimo de Praga e Joana d’Arc, talvez nos sentíssemos tentados a dizer que as trevas espirituais dominavam, por inteiro, o Velho Mundo.

[SANT’ANNA, Hernani T. [pelo Espírito Áureo]. Universo e vida. Rio de Janeiro: FEB, 4ª ed., 1994, p. 133]


Joana d’Arc foi queimada na Praça do Velho Mercado (Place du Vieux Marché). Hoje resta apenas um jardim e uma placa indicando o exato local onde foi erguida a fogueira. Próxima há uma igreja moderna que leva o nome dela.

O processo de reabilitação de Joana, iniciado alguns anos após ao suplício, contribuiu para a queda da Inquisição no país. A total retratação da Igreja, porém, só aconteceu no século XX, com a canonização (fato esse irrelevante para o agrado do Espírito Joana d’Arc, que atem-se mais aos sentimentos sinceros, do que aos formalismos religiosos).

O Espírito Joana d’Arc, agora habitando planos superiores, jamais afastou-se da pátria que tanto ama. Nos períodos mais críticos, retornava – invisível aos olhos, mas palpável ao coração do povo francês – para alimentar a resistência e coragem aos irmãos compatriotas. Assim aconteceu nas últimas invasões ao solo da França em 1871 (na Guerra Franco-Prussiana), 1914 (na Primeira Guerra Mundial) e 1940 (na Segunda Guerra Mundial). Joana é a síntese dos Espíritos protetores da nação francesa, que remetem ao glorioso povo celta, dito gaulês, que habitava aquelas terras em passado longínquo:

O que é, então, a alma céltica? É a consciência profunda da Gália. Recalcada pelo gênio latino, oprimida pelos francos, desconhecida, olvidada por seus próprios filhos, a alma céltica sobrevive através dos séculos.

É quem reaparece nas horas solenes da história, nas épocas de desastres e ruínas, para salvar a pátria em perigo. É a velha mãe que sobressalta, sempre que as plantas do inimigo lhe maculam o tálamo e desperta o sono, para concitar os filhos a expelir o estrangeiro.

Os celtas, portanto, como povo, não existem mais. Mas permanecem vivos através de seu espírito grafado na alma e no inconsciente dos povos que os sucederam, no fluxo e refluxo da história […].

Fisicamente, todo indivíduo porta uma herança genética, mas psiquicamente também carrega uma outra, esta espiritual. Trata-se da combinação de experiências de nossas vidas passadas, como acontece com o druidismo, na forma de uma corrente que proporciona a transmissão da tradição espiritual.

[MONTEIRO, pp. 27-8].

Gravura publicitária da época da Primeira Guerra pedindo às mulheres americanas para comprarem selos de auxílio à França.
8 de agosto de 1918 foi apelidado pelo alemães de O Dia Negro: aliados superaram as forças germânicas (graças a ajuda americana) em Amiens, na França. Três meses depois o armistício foi assinado em 11 de novembro em um vagão de trem na floresta de Compiègne. Coincidentemente ou não, onde Joana d’Arc foi traída e capturada.

O RESGATE DE JOANA
Joana d’Arc foi um dos marcos ou divisores de águas tão aguardado à evolução moral e intelectual dos homens, como afirmou a Espiritualidade:

FIM DA IDADE MEDIEVAL
Do plano invisível e em todos os tempos, os Espíritos abnegados acompanharam a Humanidade em seus dias de martírio e glorificação, lutando sempre pela paz e pelo bem de todas as criaturas.

Referindo-nos, de escantilhão, à nobre figura de Joana d’Arc, que cumpriu elevada missão adstrita aos princípios de justiça e de fraternidade na Terra, e às guerras dolorosas que assinalaram o fim da idade medieval, registramos aqui, que, com as conquistas tenebrosas de Gêngis Khan e de Tamerlão e com a queda de Constantinopla, em 1453, que ficou para sempre em poder dos turcos, verificava-se o término da época medieval. Uma nova era despontava para a Humanidade terrestre, com a assistência contínua do Cristo, cujos olhos misericordiosos acompanham a evolução dos homens, lá dos arcanos do Infinito.

[XAVIER, Francisco Cândido (ditado pelo Espírito Emmanuel). A caminho da luz. Rio de Janeiro: FEB, 1998, 23ª ed., p. 170]

Pintura de Michael C. Hayes.
O digno compatriota de Kardec fez mais alusões entre Joana e Jesus:

A vida de Joana d’Arc tem flagrantes analogias com a do Cristo. Como este, ela nasceu entre os pequeninos da Terra. O adolescente de Nazaré discutia com os doutores da lei no sinédrio; do mesmo modo, a virgem da Lorena confunde os de Poitiers, respondendo-lhes às insidiosas perguntas. Ao vê-la expulsar do acampamento as ribaldas [meretrizes], reconhecemos o gesto de Jesus expulsando do templo os mercadores. A paixão de Ruão não emparelha com a do Gólgota e a morte da Pucela [virgem] não pode ser comparada ao fim trágico do filho de Maria? Como Jesus, Joana foi renegada e vendida. O preço da vítima retinirá nas mãos de João de Luxemburgo, como na de Judas. A exemplo de Pedro no pretório, o rei Carlos e seus conselheiros voltarão as costas e fingirão não mais a conhecer, quando lhes noticiam que Joana se acha em poder dos ingleses, ameaçada de cruel morte. Até a cena de Saint Ouen* muitas semelhanças apresenta com a do Jardim das Oliveiras.

[p. 253, com adições. *Para forçar a abjuração de Joana, seus acusadores, em 24 de maio de 1431, ameaçaram de queimá-la no cemitério da Igreja de Saint Ouen. Diante do cenário lúgubre daquele campo-santo, a jovem, vencida psicologicamente (fraquejou igual a Jesus no Getsêmani), pôs seu nome (a única coisa que sabia escrever) num documento forjado, para que a execução fosse comutada para prisão perpétua. Porém, reencorajada pelas “vozes”, mais tarde ela retirou a abjuração e foi queimada seis dias depois na praça principal de Ruão].

Em 1890, Dénis formou um grupo para sessões espíritas em Tours (França), cujos Espíritos guias principais eram Jerônimo de Praga e o Espírito Azul, que mais tarde se identificou como Joana d’Arc.
Denis documentou em sua grandiosa obra uma breve, forte e bela mensagem da própria Joana d’Arc, por meio de incorporação mediúnica, recebida em julho de 1909. Transcrevemos a última parte, que ratifica o papel da Boa Nova espírita:

Chegaram os tempos. O Espírito da Verdade, anunciado pelo Cristo, vem próximo. Nascerá no meio de vós. O Cristianismo não foi compreendido. Ele viera para tirar a alma do sofrimento e da inconsciência. Agora, outras verdades superiores vão luzir [p. 200].

Gravura de Andrew C. P. Haggard (1912).

Alguns ainda perguntam, por que uma “enviada do Céu” utilizou a guerra para por em prática a vontade de Deus? Se acaso possuía aspectos que lembravam Jesus Cristo, por que não usou meios pacíficos para salvar a França? Vão além, por que Deus permitiu que Joana fosse capturada e morta tão jovem? Por que não possibilitou que pelas mãos da Virgem Guerreira a Guerra dos Cem Anos chegasse ao fim?


Ora, com certeza, se assim lhe fosse propício, pacificamente, e com muito prazer, cumpriria sua missão e poria fim à guerra! Acontece que a Providência jamais trabalha desrespeitando o livre-arbítrio dos homens.

As circunstâncias evolutivas das nações envolvidas não permitiram que a França fosse libertada sem batalhas entre os exércitos inimigos, assim como ocorreu nas Guerras Mundiais recentes (ver Lei da Destruição, em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec).

Se Deus não salvou da cruz o “único filho” (Espírito, conhecido pelos homens, mais próximo à Ele em termos evolutivos), por que salvaria Joana da fogueira?

 

Famoso monumento dourado de Joana d’Arc da Praça das Pirâmides, em Paris. Obra, de 1874, de Emmanuel Frémiet. A escultura, encomendada pela recém-formada Terceira República, intencionava ajudar a elevar a moral dos franceses após a derrota na Guerra Franco-Prussiana e a queda da Comuna de Paris, ocorridas cerca de três anos antes.

Jesus é um Espírito perfeito, veio ao mundo por opção missionária. Porém, Joana teve que resgatar dívidas reencarnatórias, como a maioria de nós (ver o aspecto da Ação e Reação, em O Livro dos Espíritos). Entretanto, ambos estavam envolvidos num ponto em comum: a livre-escolha das pessoas com quem conviveram na Terra; pessoas essas que lhes deram a libertação, (infelizmente) através da morte física violenta.

Lembramos que mesmo o Cristo não libertou, politicamente, Israel do jugo romano, pois a libertação que propunha era moral-espiritual.

Já Mahatma Gandhi, no século passado, conseguiu a independência da Índia e Paquistão (ex-colônias britânicas), numa revolução popular sem armas, porque o momento e o local eram propícios. Denis explica:

O homem é livre. A lei suprema exige que ele próprio edifique seu destino no volver dos tempos, mediante inúmeras existências. Sem isto, quais seriam seus méritos, seus títulos à ventura, ao poder, à felicidade?

[p. 248].

A Guerra dos Cem Anos (116 anos, para ser preciso) não foi encerrada apenas no campo de batalha. Ambos os lados estavam esgotados, inclusive economicamente. Coube também ao campo diplomático fazer a paz, em 1453, visto que a Inglaterra estava começando a se envolver em uma longa guerra civil pela sucessão do trono real, a dita Guerra das Duas Rosas (1455-85).

Léon Denis desencarnou em 1927, cerca de sete anos após a canonização da Virgem de Orleans pela Igreja Católica. Desde 1922, Joana d’Arc é, com justiça, a santa padroeira da França.

Pintura de Robert Alexander Hillingford (séc. XIX).

O materialismo, nascido do racionalismo radical, surgido entre os séculos XVIII e XIX, é novo flagelo que ainda continua grassando o mundo atual. Joana e Denis, dentre outros, entraram em batalha contra esse inimigo da Humanidade.

A Revolução de 1789, que gerou a primeira república da França, foi o primeiro exemplo de terríveis governos fundamentados em ideologias unicamente materialistas, durante o período do Terror (1793-94), quando guilhotinas famintas devoravam os homens sem cessar. No século XX, brotaram Estados ditatoriais e genocidas nazifascistas e socialistas (a chamada ditadura do proletariado). O Espiritismo há mais de um século alertou sobre essa triste possibilidade: o reinado do materialismo sobre a Terra.

[…] o bem e o mal não teriam significação alguma; o homem seria levado apenas a pensar em si mesmo e a colocar acima de tudo a satisfação de seus prazeres materiais, os laços sociais seriam rompidos e as afeições mais santas destruídas para todo o sempre […]. Uma sociedade fundada sobre essas bases teria em si o germe de sua dissolução, e seus membros se entredevorariam como animais ferozes.

[KARDEC, explicação à resposta da questão 148, pp. 86-7]

Os incrédulos devem, pelo menos, reconhecer um aspecto positivo das religiões ou doutrinas espiritualistas voltadas ao Bem: o erguimento de uma barreira moral, nos indivíduos, a fim de criar obstáculos às más tendências. Para a maioria dos materialistas, é necessária muita força de vontade.

Entretanto, lembramos que os chamados materialistas, ateus ou agnósticos não são os únicos responsáveis pelos flagelos terrestres. Em diversos segmentos religiosos, há pessoas aferradas aos próprios interesses e bens materiais. Joana d’Arc foi julgada, condenada e queimada por esses últimos.

Alto-relevo francês comemorativo com a efígie de Joana pastora e palavras dos seus santos: “Filha de Deus, vai sem receio, nós seremos teu amparo”.
Encerramos com informações dadas por Denis, no alvorecer do século XX, sobre a nova campanha divina da Virgem de Orleans: ajudar o florescer do novo espiritualismo.

Volta-nos atualmente com uma outra missão: a de executar em esfera mais vasta, no plano espiritual e moral, o que fez pela França, do ponto de vista material. Auxilia, incitam os servidores, os porta-vozes da nova fé, todos aqueles que no coração aninham inabalável confiança no futuro.


[DENIS, p. 235].

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